

A CHAVE DOS GRANDES MISTRIOS
por Eliphas Levi

A Chave dos Grandes Mistrios
De acordo com Henoch, Abrao,
Hermes Trismegisto e Salomo
Eliphas Levi
Chave absoluta das cincias ocultas dada por
Guilherme de Postel e completado por Eliphas Levi.
A religio diz: Acreditai e compreendereis. A cincia vem vos dizer: Compreendei e acreditareis.
"Ento, toda a cincia mudar de fisionomia; o esprito, por muito tempo destronado e esquecido,
retomar seu lugar; ser demonstrado que as tradies antigas so inteiramente verdadeiras; que 
o paganismo no passa de um sistema de verdades corrompidas e deslocadas; que basta limp-
las, por assim dizer, e recoloc-las em seu lugar, para v-las brilhar com todo o esplendor. Em uma 
palavra, todas as idias mudaro; e, uma vez que, de todos os lados, uma multido de eleitos 
clama em concerto: "Vinde, Senhor, vinde!", por que reprovareis os homens que se lanam nesse 
futuro majestoso e se glorificam de adivinh-lo?"
Joseph de Maistre,
Soires de Saint-Ptersbourg 
PREFCIO 
Os espritos humanos tm a vertigem do mistrio. O mistrio  o abismo que atrai, sem cessar, 
nossa curiosidade inquieta por suas formidveis profundezas.
O maior mistrio do infinito  a existncia de Aquele para quem e somente para Ele - tudo  sem 
mistrio.
Compreendendo o infinito, que  essencialmente incompreensvel, ele prprio  o mistrio infinito e 
externamente insondvel, ou seja, ele , ao que tudo indica, esse absurdo por excelncia, em que 
acreditava Tertuliano.
Necessariamente absurdo, uma vez que a razo deve renunciar para sempre a atingi-lo; 
necessariamente crvel, uma vez que a cincia e a razo, longe de demonstrar que ele no , so 
fatalmente levadas a deixar acreditar que ele , e elas prprias a ador-lo de olhos fechados.
 que esse absurdo  a fonte infinita da razo, a luz brota eternamente das trevas eternas, a 
cincia, essa Babel do esprito, pode torcer e sobrepor suas espirais subindo sempre; ela poder 
fazer oscilar a Terra, nunca tocar o cu.
Deus  o que aprenderemos eternamente a conhecer. , por conseguinte, o que nunca saberemos.
O domnio do mistrio  um campo aberto s conquistas da inteligncia. Pode-se andar nele com 
audcia, nunca se reduzir sua extenso, mudar-se- somente de horizontes. Todo saber  o 
sonho do impossvel, mas ai de quem no ousa aprender tudo e no sabe que, para saber alguma 
coisa,  preciso resignar-se-a estudar sempre!
Dizem que para bem aprender  preciso esquecer vrias vezes. O mundo seguiu esse mtodo. 
Tudo o que se questiona em nossos dias havia sido resolvido pelos antigos; anteriores a nossos 
anais, suas solues escritas em hierglifos no tinham mais sentido para ns; um homem 
reencontrou sua chave, abriu as necrpoles da cincia antiga e deu a seu sculo todo um mundo 
de teoremas esquecidos, de snteses simples e sublimes como a natureza, irradiando sempre 
unidade e multiplicando-se como nmeros, com propores to exatas quanto o conhecimento 
demonstra e revela o desconhecido. Compreender essa cincia  ver Deus. O autor deste livro, ao 
terminar sua obra, acreditar t-lo demonstrado.
Depois, quando tiverdes visto Deus, o hierofante vos dir: Virai-vos e, na sombra que projetais na 
presena desse sol das inteligncias, ele far aparecer o Diabo, o fantasma negro que vedes 
quando no olhais para Deus e quando acreditais ter preenchido o cu com vossa sombra, porque 
os vapores da terra parecem t-la feito crescer ao subir.
Pr de acordo, na ordem religiosa, a cincia com a revelao e a razo com a f, demonstrar em 
filosofia os princpios absolutos que conciliam todas as antinomias, revelar enfim o equilbrio 
universal das foras naturais, tal  a tripla finalidade desta obra, que ser, por conseguinte, dividida 
em trs partes.
Mostraremos a verdadeira religio com caracteres tais que ningum, crente ou no, poder 
desconhec-la, ser o absoluto em matria de religio. Estabeleceremos, em filosofia, os 
caracteres imutveis dessa verdade, que , em cincia, realidade, em julgamento, razo e, em 
moral, justia. Enfim, faremos conhecer estas leis da natureza cujo equilbrio  o sustento e 
mostraremos o quanto so vs as fantasias de nossa imaginao diante das realidades fecundas 
do movimento e da vida. Convidaremos tambm os grandes poetas do futuro para refazerem a 
divina comdia, no mais de acordo com os sonhos do homem, mas segundo as matemticas de 
Deus.
Mistrio dos outros mundos, foras ocultas, revelaes estranhas, doenas misteriosas, faculdades 
excepcionais, espritos, aparies, paradoxos mgicos, arcanos hermticos, diremos tudo e 
explicaremos tudo. Quem pois nos deu esse poder? No tememos revel-lo a nossos leitores.
Existe um alfabeto oculto e sagrado que os hebreus atribuem a Henoch, os egpcios a Tot ou a 
Mercrio Trismegisto, os gregos a Cadmo e a Palamdio. Esse alfabeto, conhecido pelos 
pitagricos, compe-se de idias absolutas ligadas a signos e a nmeros e realiza, por suas 
combinaes, as matemticas do pensamento. Salomo havia representado esse alfabeto por 
setenta e dois nomes escritos em trinta e seis talisms e  o que os iniciados do Oriente 
denominam ainda de as pequenas chaves ou clavculas de Salomo. Essas chaves so descritas e 
seu uso  explicado num livro cujo dogma tradicional remonta ao patriarca Abrao,  o Sepher 
Ytsirah, e, com a inteligncia do Sepher Ytsirah, penetra-se o sentido oculto do Zohar, o grande 
livro dogmtico da Cabala dos hebreus. As clavculas de Salomo, esquecidas com o tempo e que 
se dizia estarem perdidas, ns as encontramos, e abrimos sem dificuldade todas as portas dos 
antigos santurios, onde a verdade absoluta parecia dormir, sempre jovem e sempre bela, como 
aquela princesa de um conto infantil que espera durante um sculo de sono o esposo que deve 
despert-la.
Depois de nosso livro, ainda haver mistrios, mas mais alto e mais longe nas profundezas 
infinitas. Esta publicao  uma luz ou uma loucura, uma mistificao ou um monumento. Lede, 
refleti e julgai.






 

A CHAVE DOS GRANDES MISTRIOS 
por Eliphas Levi 
Primeira Parte 
Mistrios Religiosos:
Problemas a resolver 
I. Demonstrar de uma maneira certa e absoluta a existncia de um Deus e dela dar uma idia 
satisfatria para todos os espritos.
II. Estabelecer a existncia de uma verdadeira religio de maneira a torn-la incontestvel.
III. Indicar o alcance e a razo de ser de todos os mistrios da religio nica, verdadeira e 
universal.
IV. Transformar as objees da filosofia em argumentos favorveis  verdadeira religio.
V. Traar o limite entre a religio e a superstio e dar a razo dos milagres e dos prodgios.
 
Consideraes preliminares 
Quando o conde Joseph de Maistre, este grande lgico apaixonado, disse com desespero: O 
mundo est sem religio, assemelhou-se queles que dizem temerariamente: Deus no existe.
O mundo, com efeito, est sem a religio do conde Joseph de Maistre, assim como  provvel 
que Deus, tal qual o concebe a maioria dos ateus, no exista.
A religio  uma idia apoiada num fato constante e universal; a humanidade  religiosa: a 
palavra religio tem, portanto, um sentido necessrio e absoluto. A prpria natureza consagra a 
idia que representa essa palavra e a eleva  altura de um princpio.
A necessidade de crer liga-se estreitamente  necessidade de amar:  por isso que as almas tm 
necessidade de comungar com as mesmas esperanas e com o mesmo amor. As crenas 
isoladas no passam de dvidas:  o lao da confiana mtua que faz a religio ao criar a f.
A f no se inventa, no se impe, no se estabelece por convico poltica; manifesta-se, como 
a vida, com uma espcie de fatalidade. O mesmo poder que dirige os fenmenos da natureza 
estende e limita, alm de todas as previses humanas, o domnio sobrenatural da f. No se 
imaginam as revelaes, elas se impem, e nelas se cr. Por mais que o esprito proteste contra 
as obscuridades do dogma, est subjugado pela atrao dessas mesmas obscuridades, e 
freqentemente o mais indcil dos pensadores coraria em aceitar o ttulo de homem sem religio.
A religio ocupa um espao bem maior entre as realidades da vida do que pretendem crer 
aqueles que dispensam a religio ou que tm a pretenso de dispens-la. Tudo o que eleva o 
homem acima do animal, o amor moral, a abnegao, a honra so sentimentos essencialmente 
religiosos. O culto da ptria e do lar, a religio do juramento e das lembranas so coisas que a 
humanidade jamais abjurar sem se degradar completamente, e que no saberiam existir sem a 
crena em alguma coisa maior do que a vida mortal, com todas as suas vissicitudes, suas 
ignorncias e suas misrias.
Se a perda eterna no nada tivesse de ser o resultado de todas as nossas aspiraes s coisas 
sublimes que sentimos serem eternas, a fruio do presente, o esquecimento do passado e a 
displicncia para com o futuro seriam nossos nicos deveres, e seria rigorosamente verdadeiro 
dizer, com um sofista clebre, que o homem que pensa  um animal degradado.
Por isso, de todas as paixes humanas, a paixo religiosa  a mais poderosa e a mais vivaz. 
Produz-se seja pela afirmao seja pela negao, com igual fanatismo, uns afirmando com 
obstinao o deus que fizeram  sua imagem, outros negando Deus com temeridade, como se 
tivessem podido compreender e devastar por um nico pensamento todo o infinito que est ligado 
a seu grande nome.
Os filsofos no refletiram suficientemente sobre o fato fisiolgico da religio na humanidade: a 
religio, com efeito, existe alm de toda discusso dogmtica.  uma faculdade da alma humana, 
da mesma forma que a inteligncia e o amor. Enquanto houver homens, a religio existir. 
Considerada assim, ela no  outra coisa que a necessidade de um idealismo infinito, 
necessidade que justifica todas as aspiraes ao progresso, que inspira todas as abnegaes, 
que sozinha impede a virtude e a honra de serem unicamente palavras que servem para iludir a 
vaidade dos fracos e dos tolos em proveito dos fortes e dos hbeis.
 a essa necessidade inata de crena que se poderia dar o nome de religio natural, e tudo o que 
tende a diminuir e limitar o impulso dessa crena est, na ordem religiosa, em oposio  
natureza. A essncia do objeto religioso  o mistrio, uma vez que a f comea no desconhecido 
e abandona todo o resto s investigaes da cincia. A dvida , alis, mortal  f; ela sente que 
a interveno do ser divino  necessria para cobrir o abismo que separa o finito do infinito e 
afirma essa interveno com todo o mpeto de seu corao, com toda a docilidade de sua 
inteligncia. Fora desse ato de f, a necessidade religiosa no encontra satisfao e transmuta-se 
em ceticismo e em desespero. Mas, para que o ato de f no seja um ato de loucura, a razo 
quer que ele seja dirigido e regulado. Pelo qu? Pela cincia? Vimos que nesse caso a cincia  
impotente. Pela autoridade civil?  absurdo. Colocai guardas para vigiar as oraes!
Resta, pois, a autoridade moral, nica que pode constituir o dogma e estabelecer a disciplina do 
culto de comum acordo, dessa vez, com a autoridade civil, mas no conforme s suas ordens;  
preciso, em uma palavra, que a f d  necessidade religiosa uma satisfao real, inteira, 
permanente, indubitvel. Para tanto,  preciso a afirmao absoluta, invarivel, de um dogma 
conservado por uma hierarquia autorizada.  preciso um culto eficaz que d, com uma f 
absoluta, uma realizao substancial aos signos da crena.
A religio, assim compreendida, sendo a nica que satisfaz a necessidade natural de religio, 
deve ser chamada de a nica verdadeiramente natural. E chegamos por ns mesmos a esta 
dupla definio: a verdadeira religio natural  a religio revelada,  a religio hierrquica e 
tradicional, que se afirma absolutamente acima das discusses humanas pela comunho da f, 
da esperana e da caridade.
Ao representar a autoridade moral e ao realiz-la pela eficcia de seu ministrio, o sacerdote  
santo e infalvel, enquanto a humanidade est sujeita ao vcio e ao erro. O padre, ao agir como 
padre,  sempre o representante de Deus. Pouco importam as faltas ou mesmo os crimes do 
homem. Quando Alexandre VI fazia uma ordenao, no era o envenenador que impunha as 
mos aos bispos, era o papa. Ora, o papa Alexandre VI nunca corrompeu nem falsificou os 
dogmas que o condenavam, os sacramentos que, em suas mos, salvavam os outros e no o 
justificavam. Houve sempre e em todos os lugares homens mentirosos e criminosos; mas, na 
Igreja hierrquica e divinamente autorizada, nunca houve e nunca haver nem maus papas nem 
maus padres. Mau e padre so palavras que no se ajustam.
Falamos de Alexandre VI e acreditamos que esse nome baste, sem que nos oponham outras 
lembranas justamente execradas. Grandes criminosos puderam duplamente desonrar-se, por 
causa do carter sagrado de que estavam revestidos; mas no lhes foi dado desonrar esse 
carter, que continua sempre radiante e esplndido acima da humanidade que cai.
Dissemos que no h religio sem mistrios; acrescentemos que no h mistrios sem smbolos. 
Sendo o smbolo a frmula ou a expresso do mistrio, ele s exprime sua profundidade 
desconhecida por imagens paradoxais emprestadas do conhecido. Devendo caracterizar o que 
est acima da razo cientfica, a forma simblica deve necessariamente encontrar-se fora dessa 
razo: da, a palavra clebre e perfeitamente justa de um Pai da Igreja: Creio, porque  absurdo, 
credo quia absurdum.
Se a cincia afirmasse o que no sabe, destruiria a si prpria. A cincia no pode, portanto, 
realizar a obra da f, tanto quanto a f no pode decidir em matria de cincia. Uma afirmao de 
f com que a cincia tenha a temeridade de ocupar-se ser apenas um absurdo para ela, da 
mesma forma que uma afirmao de cincia que nos fosse dada como artigo de f seria um 
absurdo na ordem religiosa. Crer e saber so dois termos que nunca se podem confundir.
Tampouco poderiam opor-se um ao outro num antagonismo qualquer.  impossvel, com efeito, 
crer no contrrio do que se sabe sem deixar, por isso mesmo, de o saber, e  igualmente 
impossvel chegar a saber o contrrio do que se cr sem deixar imediatamente de crer.
Negar ou mesmo contestar as decises da f, e isso em nome da cincia,  provar que no se 
compreende nem a cincia nem a f: com efeito, o mistrio de um Deus em trs pessoas no  
um problema de matemtica; a encarnao do Verbo no  um fenmeno que pertena  
medicina; a redeno escapa  crtica dos historiadores. A cincia  absolutamente impotente 
para decidir se se tem ou no razo de se acreditar ou no no dogma; ela pode constatar 
somente os resultados da crena e, se a f torna evidentemente os homens melhores, se, alis, a 
f em si mesma, considerada como um fato fisiolgico,  evidentemente uma necessidade e uma 
fora, ser preciso que a cincia o admita e tome o sbio partido de contar sempre com a f.
Ousemos afirmar agora que existe um fato imenso, igualmente aprecivel pela f e pela cincia, 
um fato que torna Deus visvel de algum modo sobre a terra, um fato incontestvel e de alcance 
universal; esse fato  a manifestao, no mundo, a partir da poca em que comea a revelao 
crist, de um esprito desconhecido pelos antigos, de um esprito evidentemente divino, mais 
positivo que a cincia em suas obras, mais magnificamente ideal em suas aspiraes que a mais 
elevada poesia, um esprito para o qual era preciso criar um nome novo, completamente inaudito 
nos santurios da Antigidade. Assim, esse nome foi criado, e demonstraremos que esse nome, 
que essa palavra , em religio, tanto para a cincia quanto para a f, a expresso do absoluto; a 
palavra  caridade e o esprito de que falamos chama-se o esprito de caridade.
Diante da caridade, a f prosterna-se e a cincia, vencida, inclina-se. H evidentemente aqui 
alguma coisa maior do que a humanidade; a caridade prova por suas obras que no  um sonho. 
 mais forte do que todas as paixes; triunfa sobre o sofrimento e a morte; faz que Deus seja 
compreendido por todos os coraes e parece j preencher a eternidade pela realizao iniciada 
de suas legtimas esperanas.
Diante da caridade viva e atuante, que Proudhon ousar blasfemar? Que Voltaire ousar rir?
Empilhai, um sobre os outros, os sofismas de Diderot, os argumentos crticos de Strauss, as 
Runas de Volney - to bem nomeadas, pois esse homem no poderia fazer seno runas -, as 
blasfmias dessa revoluo cuja voz extingue-se uma vez no sangue e outra no silncio do 
desprezo; acrescentei a isso o que o futuro pode nos reservar de monstruosidades e devaneios; 
depois, que venha a mais humilde e a mais simples de todas as irms da caridade, o mundo 
abandonar todas as suas tolices, todos os seus crimes, todos os seus devaneios doentios, para 
inclinar-se diante dessa realidade sublime.
Caridade! palavra divina, palavra que, por si, leva  compreenso de Deus, palavra que contm 
uma revelao inteira! Esprito de caridade, aliana de duas palavras que so toda uma soluo e 
todo um futuro! Que pergunta, com efeito, essas duas palavras no podem responder?
O que  Deus para ns seno o esprito de caridade? o que  a ortodoxia? no  o esprito de 
caridade que no discute sobre a f a fim de no alterar a confiana dos pequenos e de no 
perturbar a paz da comunho universal? Ora, o que  a Igreja universal seno a comunho em 
esprito de caridade?  pelo esprito de caridade que a Igreja  infalvel. O esprito de caridade  a 
virtude divina do sacerdcio.
Dever dos homens, garantia de seus direitos, prova de sua imortalidade, eternidade de felicidade 
iniciada para eles na terra, objetivo glorioso dado a sua existncia, fim e meio de seus esforos, 
perfeio de sua moral individual, civil e religiosa, o esprito de caridade abrange tudo, aplica-se a 
tudo, tudo pode esperar, tudo empreender e tudo cumprir.
Era pelo esprito de caridade que Jesus, expirando na cruz, dava a sua me um filho na pessoa 
de So Joo e, triunfando sobre as angstias do mais horrvel suplcio, soltava um grito de 
libertao e de salvao ao dizer: "Pai, nas tuas mos entrego meu esprito."
Foi pelo esprito de caridade que doze artesos da Galilia conquistaram o mundo; amaram a 
verdade mais do que suas vidas; e foram sozinhos diz-la aos povos e aos reis; provados pela 
tortura, foram considerados fiis. Mostraram s multides a imortalidade viva em sua morte e 
regaram a terra com um sangue cujo calor no podia extinguir-se, pois neles ardia a chama da 
caridade.
Foi pela caridade que os apstolos constituram seus smbolos. Disseram que acreditar juntos  
melhor do que duvidar separadamente; constituram a hierarquia sobre a obedincia, tornada to 
nobre e to grande pelo esprito de caridade, que servir assim  reinar; formularam a f de todos e 
a esperana de todos e puseram esse smbolo sob a guarda da caridade de todos. Ai do egosta 
que se apropria de uma s palavra dessa herana do Verbo, pois  um deicida que quer 
desmembrar o corpo do Senhor.
O smbolo  a arca sagrada da caridade, quem quer que o toque  atingido pela morte eterna, 
pois a caridade retira-se dele.  a herana sagrada de nossos filhos,  o preo do sangue de 
nossos pais.
Era pela caridade que os mrtires se consolavam nas prises dos csares e atraam para sua 
crena seus guardas e mesmo seus carrascos.
Era em nome da caridade que So Martinho de Tours protestava contra o suplcio dos priscilianos 
e separava-se da comunho do tirano que queria impor a f pela espada.
Foi pela caridade que tantos santos consolaram o mundo dos crimes cometidos em nome da 
prpria religio e dos escndalos do santurio profanado.
Foi pela caridade que So Vicente de Paulo e Fenelon impuseram-se  admirao dos sculos, 
mesmo aos mais mpios, e fizeram calar de antemo o riso dos filhos de Voltaire diante da 
seriedade imponente de suas virtudes.
Foi pela caridade, enfim, que a loucura da cruz tornou-se a sabedoria das naes, porque todos 
os nobres coraes compreenderam que  mais elevado acreditar ao lado dos que amam e 
devotam-se do que duvidar ao lado dos egostas e dos escravos do prazer!
 
ARTIGO I
Soluo do primeiro problema 
O VERDADEIRO DEUS 
Deus s pode ser definido pela f; a cincia no pode negar nem afirmar que ele existe.
Deus  o objeto absoluto da f humana. No infinito,  a inteligncia suprema e criadora da ordem. 
No mundo,  o esprito de caridade.
Ser o Ser universal uma mquina fatal que tritura eternamente as inteligncias ocasionais ou 
uma inteligncia providencial que dirige as foras para a melhoria dos espritos?
A primeira hiptese repugna  razo,  desesperadora e imoral.
Cincia e razo devem, portanto, inclinar-se diante da segunda.
Sim, Proudhon, Deus  uma hiptese, mas  uma hiptese to necessria que, sem ela, todos os 
teoremas tornam-se absurdos ou duvidosos.
Para os iniciados da cabala, Deus  a unidade absoluta que cria e anima os nmeros.
A unidade da inteligncia humana demonstra a unidade de Deus.
A chave dos nmeros  a dos smbolos, porque os sintomas so as figuras analgicas da 
harmonia que vem dos nmeros.
As matemticas no saberiam demonstrar a fatalidade cega, uma vez que so a expresso da 
exatido que  o carter da mais suprema razo.
A unidade demonstra a analogia dos contrrios;  o princpio, o equilbrio e o fim dos nmeros. O 
ato de f parte da unidade e retorna  unidade.
Vamos esboar uma explicao da Bblia pelos nmeros, porque a Bblia  o livro das imagens de 
Deus.
Perguntaremos aos nmeros a razo dos dogmas da religio eterna, e os nmeros respondero 
sempre, reunindo-se na sntese da unidade.

As poucas pginas que se seguem so simples apanhados das hipteses cabalsticas; so 
externas  f e as indicamos somente como pesquisas curiosas. No nos cabe inovar em matria 
de dogma, e nossas asseres como iniciado esto inteiramente subordinadas  nossa 
submisso como cristo.
 Esboo da teologia proftica dos nmeros 
I. A UNIDADE 
A unidade  o princpio e a sntese dos nmeros,  a idia de Deus e do homem,  a aliana da 
razo e da f.
A f no pode ser oposta  razo,  exigida pelo amor,  idntica  esperana. Amar  acreditar e 
esperar, e esse triplo mpeto da alma  chamado virtude, porque  preciso coragem para realiz-
lo. Mas haveria coragem nisso se a dvida no fosse possvel? Ora, poder duvidar  duvidar. A 
dvida  a fora equilibrante da f e tem todo o seu mrito.
A prpria natureza nos induz a crer, mas as frmulas de f so constataes sociais das 
tendncias da f numa poca dada.  o que d a infalibilidade  Igreja, infalibilidade de evidncia 
e de fato.
Deus  necessariamente o mais desconhecido de todos os seres, uma vez que s  definido em 
sentido inverso de nossas experincias,  tudo o que no somos,  o infinito oposto ao finito por 
hiptese contraditria.
A f e, por conseguinte, a esperana e o amor so to livres que o homem, longe de imp-los aos 
outros, no os impe a si mesmo.
So graas, diz a religio. Ora, ser concebvel que se exija a graa, isto , que se queira forar 
os homens ao que vem livre e gratuitamente do cu?  preciso desejar-lhes isso.
Raciocinar sobre a f  disparatar, uma vez que o objeto da f  externo  razo. Se me 
perguntam: "Existe um Deus?", eu respondo: "Acredito que sim." "Mas o senhor tem certeza 
disso?" "Se tivesse certeza, no acreditaria nele, eu o saberia."
Formular a f  admitir termos da hiptese comum.
A f comea onde a cincia acaba. Ampliar a cincia  aparentemente suprimir a f, e, na 
realidade,  ampliar igualmente seu domnio, pois  ampliar sua base.
S se pode adivinhar o desconhecido por suas propores supostas ou passveis de serem 
supostas do conhecido.
A analogia era o dogma nico dos antigos magos. Dogma verdadeiramente mediador, pois  
metade cientfico, metade hipottico, metade razo e metade poesia. Esse dogma foi e ser 
sempre o gerador de todos os outros.
O que  o Homem-Deus?  o que realiza na vida mais humana o ideal mais divino.
A f  uma adivinhao da inteligncia e do amor dirigidos pelos ndices da natureza e da razo.
Faz parte, portanto, da essncia das coisas de f serem inacessveis  cincia, duvidosas para a 
filosofia e indefinidas para a certeza.
A f  uma realizao hipottica dos fins ltimos da esperana.  a adeso ao signo visvel das 
coisas que no se v.
Sperandarum substantia rerum
Argumentum non apparentium
Para afirmar sem disparate que Deus existe ou no,  preciso partir de uma definio sensata ou 
insensata de Deus. Ora, essa definio para ser sensata deve ser hipottica, analgica e negativa 
do finito conhecido. Pode-se negar um Deus qualquer, mas o Deus absoluto no se nega tanto 
quanto no se prova;  sensatamente suposto e nele se acredita.
Bem-aventurados os que tm o corao puro, pois vero a Deus, disse o Mestre; ver com o 
corao  acreditar e, se essa f se relaciona ao verdadeiro bem, no pode ser enganada 
contanto que no procure definir muito seguindo as indues arriscadas da ignorncia pessoal. 
Nossos julgamentos, em matria de f, aplicam-se a ns mesmos, ser para ns como tivermos 
acreditado. Isto , ns prprios nos fazemos  semelhana de nosso ideal.
Quem faz os deuses torna-se semelhante a eles, assim como todos aqueles que lhes do sua 
confiana.
O ideal divino do velho mundo fez a civilizao que acabou, e no se deve desesperar ao ver o 
deus de nossos brbaros pais tornar-se o diabo de nossos filhos mais esclarecidos. Fazem-se 
diabos com deuses de refugo, e Sat s  assim to incoerente e to disforme porque  feito com 
todos os retalhos das antigas teogonias.  a esfinge sem palavra,  o enigma sem soluo,  o 
mistrio sem verdade,  o absoluto sem realidade e sem luz.
O homem  o filho de Deus, porque Deus, manifestado,  chamado o filho do homem.
Foi depois de ter feito Deus em sua inteligncia e seu amor que a humanidade compreendeu o 
verbo sublime que disse: Faa-se a luz!
O homem  a forma do pensamento divino, e Deus  a sntese idealizada do pensamento 
humano.
Assim, o Verbo de Deus  o que revela o homem, e o Verbo do homem  o que revela Deus.
O homem  o Deus do mundo, e Deus  o homem do cu.
Antes de dizer: Deus quer, o homem quis.
Para compreender e honrar Deus todo-poderoso,  preciso que o homem seja livre.
Obedecendo e abstendo-se por temor ao fruto da cincia, tendo sido inocente e estpido como o 
cordeiro, curioso e rebelde como o anjo de luz, o homem cortou o cordo de sua ingenuidade e, 
caindo livre sobre a terra, arrastou Deus em sua queda.
E  por isso que, do fundo dessa queda sublime, revela-se glorioso com o grande condenado do 
calvrio e entra com ele no reino do cu.
Pois o reino do cu pertence  inteligncia e ao amor, ambos filhos da liberdade!
Deus mostrou ao homem a liberdade como uma amante, e, para pr seu corao  prova, fez 
passar, entre ela e ele, o fantasma da morte.
O homem amou e sentiu-se Deus; deu por ela isto que Deus acabava de nos dar: a esperana 
eterna.
Lanou-se em direo de sua noiva atravs da sombra da morte e o espectro desapareceu.
O homem possua a liberdade; tinha abraado a vida.
Expia agora tua glria,  Prometeu!
Teu corao devorado sem cessar no pode morrer;  o teu abutre e Jpiter que morrero.
Um dia despertaremos enfim dos sonhos penosos de uma vida atormentada, a obra de nossa 
provao ter acabado, seremos fortes o bastante contra a dor para sermos imortais.
Ento viveremos em Deus, numa vida mais abundante, e desceremos s suas obras com a luz de 
seu pensamento, seremos levados ao infinito pelo sopro de seu amor.
Seremos, sem dvida, os primognitos de uma nova raa; anjos do porvir.
Mensageiros celestes, vogaremos na imensido e as estrelas sero nossas brancas naus.
Transformar-nos-emos em doces vises para acalmar os olhos dos que choram; colheremos lrios 
resplandecentes em prados desconhecidos e espargiremos seu orvalho sobre a terra.
Tocaremos a plpebra da criana que dorme e alegraremos docemente o corao de sua me 
com o espetculo da beleza de seu filho bem-amado.
 
II. O BINRIO 
O binrio  mais particularmente o nmero da mulher, esposa do homem e me da sociedade.
O homem  o amor na inteligncia, a mulher  a inteligncia no amor.
A mulher  o sorriso do criador contente de si prprio, e foi depois de t-la feito que ele 
descansou, diz a parbola celeste.
A mulher est antes do homem, porque  me e tudo lhe  perdoado de antemo porque d  luz 
com dor.
A mulher foi quem primeiro se iniciou na imortalidade pela morte; o homem, ento, a viu to bela e 
a compreendeu to generosa, que no quis sobreviver a ela, e amou-a mais do que sua vida, 
mais do que sua felicidade eterna.
Feliz proscrito! j que lhe foi dada como companheira de seu exlio.
Mas os filhos de Caim revoltaram-se contra a me de Abel e escravizaram sua me.
A beleza da mulher tornou-se uma presa para a brutalidade dos homens sem amor.
Ento, a mulher fechou seu corao como um santurio desconhecido e disse aos homens 
indignos dela: "Sou virgem, mas quero ser me, e meu filho ensinar-vos- a me amar."
 Eva! s saudada e adorada em tua queda!
 Maria! s abenoada e adorada em tuas dores e em tua glria!
Santa crucificada que sobrevivia a teu Deus para enterrar teu filho, s para ns a ltima palavra 
da revelao divina!
Moiss chamava Deus de Senhor, Jesus chamava-o de meu Pai, e ns, pensando em ti, diremos 
 Providncia: "Sois nossa me!"
Filhos da mulher, perdoemos a mulher decada.
Filhos da mulher, adoremos a mulher regenerada.
Filhos da mulher, que dormimos em seu seio, que fomos embalados em seus braos e 
consolados por seus carinhos, amemo-la e amemo-nos entre ns!
 
III. O TERNRIO 
O ternrio  o nmero da criao.
Deus criou a si prprio eternamente e o infinito que ele preenche com suas obras  uma criao 
incessante e infinita.
O amor supremo contempla-se na beleza como em um espelho, e experimenta todas as formas 
como enfeites, pois  o noivo da vida.
O homem tambm afirma e cria a si prprio: enfeita-se com suas conquistas, ilumina-se com suas 
concepes, reveste-se com suas obras como que com vestes nupciais.
A grande semana da criao foi imitada pelo gnio humano divinizando as formas da natureza.
Cada dia forneceu uma revelao nova, cada rei progressivo do mundo foi por um dia a imagem e 
a encarnao de Deus! Sonho sublime que explica os mistrios da ndia e justifica todos os 
simbolismos!
A elevada concepo do homem-Deus corresponde  criao de Ado, e o cristianismo,  
semelhana dos primeiros dias do homem tpico no paraso terrestre, foi apenas uma aspirao e 
uma viuvez.
Esperamos o culto da esposa e da me, aspiramos s npcias da nova aliana.
Ento os pobres, os cegos, todos os proscritos do velho mundo sero convidados para o festim e 
recebero um traje nupcial; e olhar-se-o uns aos outros com uma grande doura e um inefvel 
sorriso, porque tero chorado muito tempo.
 
IV. O QUATERNRIO 
O quaternrio  o nmero da fora.  o ternrio completado por seu produto,  a unidade 
rebelada reconciliada  trindade soberana.
No ardor primeiro da vida, o homem, tendo esquecido sua me, compreendeu Deus apenas como 
um pai inflexvel e cioso.
O sombrio Saturno, armado com sua foice parricida, pe-se a devorar seus filhos.
Jpiter teve cenhos que abalaram o Olimpo, e Jeov, troves que ensurdeceram as solides do 
Sinai.
E, no entanto, o pai dos homens, embriagado s vezes como No, deixava o mundo perceber os 
mistrios da vida.
Psiqu, divinizada por suas aflies, tornava-se esposa do Amor; Adnis ressuscitado 
reencontrava Vnus no Olimpo; J, vitorioso ao mal, recuperava mais do que tinha perdido.
A lei  uma prova de coragem. Amar a vida mais do que se teme as ameaas da morte  merecer 
a vida.
Os eleitos so os que ousam; ai dos tmidos!
Assim, os escravos da lei que se fazem os tiranos das conscincias, e os servidores do temor, e 
os avaros de esperana, e os fariseus de todas as sinagogas e de todas as igrejas, estes so os 
rprobos e os malditos do Pai!
Cristo no foi excomungado e crucificado pela sinagoga?
Savonarola no foi queimado por ordem de um pontfice da religio crist?
Os fariseus no so hoje o que eram no tempo de Caifs?
Se algum lhes fala em nome da inteligncia e do amor, escut-lo-o?
Foi arrancando os filhos da liberdade  tirania dos Faras que Moiss inaugurou o reino do Pai.
Foi quebrando o jugo insuportvel do farisasmo mosaico que Jesus convidou todos os homens  
fraternidade do filho nico de Deus.
Quando carem os ltimos dolos, quando se quebrarem as ltimas correntes materiais das 
conscincias, quando os ltimos matadores de profetas, quando os ltimos sufocadores do Verbo 
forem confundidos, ser o reino do Esprito Santo.
Glria, pois, ao Pai, que enterrou o exrcito do Fara no mar Vermelho!
Glria ao Filho que rasgou o vu do templo e cuja cruz extremamente pesada posta sobre a coroa 
dos Csares quebrou contra a terra a fronte dos Csares!
Glria ao Esprito Santo que deve varrer da terra com seu sopro terrvel todos os ladres e todos 
os carrascos para dar lugar ao banquete dos filhos de Deus!
Glria ao Esprito Santo que prometeu ao anjo da liberdade a conquista da terra e do cu.
O anjo da liberdade nasceu antes da aurora do primeiro dia, antes mesmo do despertar da 
inteligncia, e Deus o denominou estrela da manh.
 Lcifer, tu te desligaste voluntria e desdenhosamente do cu onde o sol te inundava com sua 
claridade, para sulcar com teus prprios raios os campos agrestes da noite.
Brilhas quando o sol se pe e teu olhar resplandecente precede o nascer do dia.
Cais para de novo levantar; experimentas a morte para melhor conhecer a vida.
s, para as glrias antigas do mundo, a estrela da noite; para a verdade renascente, a bela 
estrela da manh!
A liberdade no  a licena: a licena  a tirania.
A liberdade  a guardi do dever, porque ela reivindica o direito.
Lcifer, cujas idades das trevas fizeram o gnio do mal, ser verdadeiramente o anjo da luz 
quando, tendo conquistado a liberdade ao preo da reprovao, fizer uso dela para se submeter  
ordem eterna, inaugurando assim as glrias da obedincia voluntria.
O direito  apenas a raiz do dever,  preciso possuir para dar.
Ora, eis como uma elevada poesia explica a queda dos anjos.
Deus tinha dado aos espritos a luz e a vida, depois lhes disse: Amai.
- O que  amar?, responderam os espritos.
- Amar  dar-se aos outros, respondeu Deus. - Os que amarem sofrero, mas sero amados.
- Temos o direito de no dar nada, e nada queremos sofrer, disseram os espritos inimigos do 
amor.
- Estais em vosso direito, respondeu Deus -, e separemo-nos. Eu e os meus queremos sofrer e 
morrer, mesmo para amar.  nosso dever!
O anjo cado  pois aquele que desde o princpio recusou amar; no ama, e  todo o seu suplcio; 
no d, e  toda a sua misria; no sofre, e  seu nada; no morre, e  seu exlio.
O anjo cado no  Lcifer, o porta-luz,  Sat, o caluniador do amor.
Ser rico  dar; no dar nada  ser pobre; viver  amar, no amar nada  estar morto; ser feliz  
devotar-se; existir somente para si  reprovar a si prprio,  seqestrar-se no inferno.
O cu  a harmonia dos sentimentos gerais; o inferno  o conflito dos instintos lassos.
O homem do direito  Caim, que matou Abel por inveja; o homem do dever  Abel, que morre 
para Caim por amor.
E tal foi a misso do Cristo, o grande Abel da humanidade.
No  pelo direito que devemos ousar em tudo,  pelo dever.
O dever  a expanso e a fruio da liberdade; o direito isolado  o pai da servido.
O dever  a obrigao, o direito  o egosmo.
O dever  o sacrifcio, o direito  a rapina e o roubo.
O dever  o amor, o direito  o dio.
O dever  a vida infinita, o direito  a morte eterna.
Se  preciso combater pela conquista do direito,  somente para adquirir a potncia do dever: e 
por que seramos livres se no fosse para amar, devotarmo-nos e, assim, assemelharmo-nos a 
Deus?
Se  preciso infringir a lei,  quando ela submete o amor ao medo.
Aquele que quiser salvar sua alma perd-la-, diz o livro santo, e aquele que consentir em perd-
la salv-la-.
O dever  amar: perea todo aquele que cria obstculos ao amor! Silncio aos orculos do dio! 
Aniquilamento aos falsos deuses do egosmo e do medo! Vergonha aos escravos avaros de amor!
Deus ama os filhos prdigos!
 
V. O QUINRIO 
O quinrio  o nmero religioso, pois  o nmero de Deus reunido ao da mulher.
A f no  a credulidade estpida da ignorncia maravilhada.
A f  a conscincia e a confiana do amor.
A f  o grito da razo que persiste em negar o absurdo, mesmo diante do desconhecido.
A f  um sentimento necessrio  alma como a respirao  vida:  a dignidade do corao,  a 
realidade do entusiasmo.
A f no consiste na afirmao deste ou daquele smbolo, mas na aspirao verdadeira e 
constante s verdades veladas por todos os simbolismos.
Um homem rejeita uma idia indigna da divindade, quebra suas falsas imagens, revolta-se contra 
odiosas idolatrias, e dizeis que  um ateu?
Os perseguidores da Roma decada tambm chamavam os primeiros cristos de ateus, porque 
no adoravam os dolos de Calgula ou de Nero.
Negar toda uma religio e mesmo todas as religies de preferncia a aderir a frmulas que a 
conscincia reprova  um corajoso e sublime ato de f.
Todo homem que sofre por suas convices  um mrtir da f.
Talvez se explique mal, mas prefere a justia e a verdade a qualquer coisa; no o condeneis sem 
entend-lo.
Acreditar na verdade suprema no  defini-la, e declarar que nela se cr  reconhecer ignor-la.
O apstolo So Paulo limita toda f a estas duas coisas: acreditar que Deus existe e que ele 
recompensa aqueles que o procuram.
A f  maior que as religies, porque precisa menos dos artigos da crena.
Um dogma qualquer constitui apenas uma crena e pertence a uma comunho especial; a f  
um sentimento comum a toda a humanidade.
Quanto mais se discute para precisar, menos se acredita; um dogma a mais  uma crena de que 
uma seita se apropria e eleva assim, de alguma maneira,  f universal.
Deixemos os sectrios fazerem e refazerem seus dogmas, deixemos os supersticiosos 
detalharem e formularem suas supersties, deixemos os mortos enterrarem seus mortos, como 
dizia o Mestre, e acreditemos na verdade indizvel, no absoluto que a razo admite sem 
compreender, no que pressentimos sem saber.
Acreditemos na razo suprema.
Acreditemos no amor infinito e tenhamos piedade das estupidezes da escola e das barbries da 
falsa religio.
 homem! dize-me o que esperas, e eu dir-te-ei o que vales.
Rezas, jejuas, velas e crs que escapars assim sozinho, ou quase sozinho,  perda imensa dos 
homens devorados por um Deus cioso. s um hipcrita e um mpio.
Fazes da vida uma orgia e esperas o nada como sono, s um doente ou um insano.
Ests pronto a sofrer como os outros e pelos outros e esperas a salvao de todos, s um sbio e 
um justo.
Esperar no  ter medo.
Ter medo de Deus! Que blasfmia!
O ato de esperana  a orao.
A orao  o derramar-se da alma na sabedoria e no amor eternos.
 o olhar do esprito para a verdade e o suspiro do corao para a beleza suprema.
 o sorriso da criana para a me.
 o murmrio do bem-amado que se debrua para os beijos de sua bem-amada.
 a doce felicidade da alma amante que se dilata num oceano de amor.
 a tristeza da esposa na ausncia do novel esposo.
 o suspiro do viajante que pensa em sua ptria.
 o pensamento do pobre que trabalha para alimentar a mulher e os filhos.
Oremos em silncio e ergamos em direo de nosso Pai desconhecido um olhar de confiana e 
de amor; aceitemos com f e resignao a parte que nos cabe nas penas da vida, e todas as 
batidas de nossos coraes sero palavras de orao.
Necessitamos acaso informar a Deus que coisas lhe pedimos, j no sabe ele o que nos  
necessrio?
Se choramos, apresentemos-lhe as nossas lgrimas; se nos regozijamos, dirijamos-lhe o nosso 
sorriso; se ele nos atinge, baixemos a cabea; se nos acaricia, adormeamos em seus braos!
Nossa orao ser perfeita, quando orarmos sem sequer saber que oramos.
A orao no  um rudo que fere os ouvidos,  um silncio que penetra no corao.
E doces lgrimas vm umedecer os olhos, e suspiros escapam como a fumaa dos incensos.
Fica-se tomado por um inefvel amor a tudo o que  beleza, verdade, justia; palpita-se de uma 
nova vida e no se teme mais morrer. Pois a orao  a vida eterna da inteligncia e do amor;  a 
vida de Deus na terra.
Amai-vos uns aos outros, eis a lei e os profetas! Meditai e compreendei essa palavra.
E, quando tiverdes compreendido, no leiais mais, no procures mais, no duvideis mais, amai!
No mais sejais sbios, no mais sejais eruditos, amai! Essa  a doutrina da verdadeira religio; 
religio quer dizer caridade, e o prprio Deus no  seno amor.
Eu j vos disse: amar  dar.
O mpio  aquele que absorve os outros.
O homem pio  aquele que se expande na humanidade.
Se o corao do homem concentra em si prprio o fogo com o qual Deus o anima,  um inferno 
que devora tudo e que s se preenche de cinzas; se ele o faz resplandecer fora, torna-se um doce 
sol de amor.
O homem doa-se  famlia; a famlia doa-se  ptria; a ptria,  humanidade.
O egosmo do homem merece o isolamento e o desespero, o egosmo da famlia merece a runa 
e o exlio, o egosmo da ptria merece a guerra e a invaso.
O homem que se isola de todo amor humano ao dizer: Eu servirei a Deus, este se engana. Pois, 
diz o apstolo So Joo, se ele no ama ao prximo que v, como amar a Deus que no v?
 preciso dar a Deus o que  de Deus, mas no se deve recusar mesmo a Csar o que  de 
Csar.
Deus  quem d a vida, Csar  quem pode dar a morte.
 preciso amar a Deus e no temer a Csar, pois est dito no livro sagrado: Quem com ferro fere 
com ferro perecer.
Quereis ser bons, sede justos; quereis ser justos, sede livres!
Os vcios que deixam o homem semelhante  besta so os primeiros inimigos da sua liberdade.
Olhai o bbado e dizei-me se essa besta imunda pode ser livre!
O avaro maldiz a vida de seu pai e, como o corvo, tem fome de cadveres.
O ambicioso quer runas,  um invejoso em delrio; o devasso escarrou no seio da me e encheu 
de abortos as entranhas da morte.
Todos esses coraes sem amor so punidos pelo mais cruel dos suplcios: o dio.
Pois, saibamo-lo bem, a expiao est contida no pecado.
O homem que faz o mal  como um vaso de barro defeituoso, quebrar-se-, a fatalidade o quer.
Com os escombros do mundo, Deus refaz estrelas; com os escombros da alma, refaz anjos.
 
VI. O SENRIO 
O senrio  o nmero da iniciao pela prova;  o nmero do equilbrio,  o hierglifo da cincia 
do bem e do mal.
Quem procura a origem do mal procura o que no .
O mal  o apelativo da desordem do bem,  a tentativa infrutfera de uma vontade inbil.
Cada um possui o fruto de suas obras, e a pobreza  somente o aguilho do trabalho.
Para o rebanho dos homens, o sofrimento  como o co pastor que morde a l das ovelhas para 
recoloc-las no caminho.
 por causa da sombra que podemos ver a luz;  por causa do frio que sentimos o calor;  por 
causa da dor que somos sensveis ao prazer.
O mal , portanto, para ns, a ocasio e o comeo do bem.
Mas, nos sonhos de nossa inteligncia imperfeita, acusamos o trabalho providencial, por no o 
compreender.
Assemelhamo-nos ao ignorante que julga o quadro no comeo do esboo e diz, quando a cabea 
est feita: "Ento esta figura no tem corpo."
A natureza continua calma e realiza sua obra.
A relha no  cruel quando rasga o seio da terra, e as grandes revolues do mundo so a 
lavoura de Deus.
Tudo tem seu tempo: aos povos ferozes, senhores brbaros; ao gado, aougueiros; aos homens, 
juizes e pais.
Se o tempo pudesse transformar os carneiros em lees, eles comeriam os aougueiros e os 
pastores.
Os carneiros nunca se transformam porque no se instruem, mas os povos instruem-se.
Pastores e aougueiros dos povos, tendes razo, portanto, em ver como inimigos aqueles que 
falam a vosso rebanho.
Rebanhos que conheceis ainda apenas vossos pastores e que quereis ignorar seu comrcio com 
os aougueiros, sois desculpveis por apedrejar aqueles que vos humilham e que vos inquietam 
ao falarem de vossos direitos.
 Cristo! Os grandes condenam-te, teus discpulos renegam-te, o povo amaldioa-te e aclama teu 
suplcio, somente tua me chora, Deus abandona-te!
Eli! Eli! Lamma Sabachtani!
 
VII. O SETENRIO 
O setenrio  o grande nmero bblico.  a chave da criao de Moiss e o smbolo de toda a 
religio. Moiss deixou cinco livros, e a lei resume-se em dois testamentos.
A Bblia no  uma histria,  uma coletnea de poemas,  um livro de alegorias e imagens.
Ado e Eva so somente tipos primitivos da humanidade; a serpente que tenta  o tempo que pe 
 prova; a rvore da cincia  o direito; a expiao pelo trabalho  o dever.
Caim e Abel representam a carne e o esprito, a fora e a inteligncia, a violncia e a harmonia.
Os gigantes so os antigos usurpadores da terra; o dilvio foi um imensa revoluo.
A arca  a tradio conservada numa famlia: a religio, nessa poca, torna-se um mistrio e a 
propriedade de uma raa. Caim  maldito por ser seu revelador.
Nemrod e Babel so duas alegorias primitivas do dsposta nico e do imprio universal sempre 
sonhado desde ento; empreendido sucessivamente pelos assrios, os medas, os persas, 
Alexandre, Roma, Napoleo, os sucessores de Pedro, o Grande, e sempre inacabado por causa 
da disperso de interesses, figurada pela confuso das lnguas.
O imprio universal no deveria realizar-se pela fora, mas pela inteligncia e pelo amor. Por isso, 
a Nemrod, homem do direito selvagem, a Bblia ope Abrao, homem do dever, que se exila para 
buscar a liberdade e a luta numa terra estrangeira de que se apodera pelo pensamento.
Tem uma mulher estril,  seu pensamento, e uma escrava fecunda,  sua fora; mas, quando a 
fora produz seu fruto, o pensamento torna-se fecundo, e o filho da inteligncia exila o filho da 
fora. O homem de inteligncia  submetido a duras provas; deve confirmar suas conquistas pelo 
sacrifcio. Deus quer que ele imole seu filho, isto , a dvida deve pr  prova o dogma e o 
homem intelectual deve estar pronto a tudo sacrificar diante da razo suprema. Deus, ento, 
intervm: a razo universal cede aos esforos do trabalho, mostra-se  cincia e apenas o lado 
material do dogma  imolado.  o que representa o carneiro preso pelos chifres entre os arbustos. 
A histria de Abrao  pois um smbolo  moda antiga e contm uma elevada revelao dos 
destinos da alma humana. Tomada ao p da letra,  um relato absurdo e revoltante. Santo 
Agostinho no tomava ao p da letra o Asno de Ouro de Apuleu! Pobres grandes homens!
A histria de Isaac  uma outra lenda. Rebeca  o tipo de mulher oriental, laboriosa, hospitaleira, 
parcial em suas afeies, astuta e ardilosa em suas manobras. Jac e Esa so ainda os dois 
tipos reproduzidos de Caim e Abel; mas aqui Abel se vinga; a inteligncia emancipada triunfa pela 
astcia. Todo o gnio israelita est no carter de Jac, o paciente laborioso suplantador que cede 
 clera de Esa, torna-se rico e compra o perdo de seu irmo. Quando os antigos queriam 
filosofar, contavam, nunca se deve esquecer.
A histria ou lenda de Jos contm em germe todo o gnio do Evangelho, e Cristo, desconhecido 
por seu povo, teve de chorar mais de uma vez ao reler esta cena em que o governador do Egito 
lana-se ao pescoo de Benjamim dando um grito e dizendo: "Eu sou Jos!"
Israel torna-se o povo de Deus, isto , o conservador da idia e o depositrio do Verbo. Essa idia 
 a da independncia humana e a da realeza pelo trabalho, mas  ocultada com cuidado, como 
um germe precioso. Um signo doloroso e indelvel  imprimido nos iniciados, toda imagem da 
verdade  proibida, e os filhos de Israel velam, segurando o sabre em torno da unidade do 
tabernculo. Hermor e Siqum querem introduzir-se pela fora na famlia sagrada e perecem com 
seu povo em conseqncia de uma falsa iniciao. Para dominar os povos,  preciso que o 
santurio j esteja cercado de sacrifcios e terror.
A servido dos filhos de Jac prepara sua libertao: eles tm uma idia, e no se acorrenta uma 
idia; tm uma religio, e no se violenta uma religio; so por fim um povo, e no se acorrenta 
um verdadeiro povo. A perseguio suscita vingadores, a idia encarna-se num homem, Moiss 
levanta, o Fara cai e a coluna de nuvens e chamas que precede um povo livre avana 
majestosamente no deserto.
O Cristo  o pai e o rei pela inteligncia e pelo amor.
Recebeu a uno santa, a uno do gnio, a uno da f, a uno da virtude que  a fora.
Ele vem quando o sacerdote est esgotado, quando os velhos smbolos no tm mais virtudes, 
quando a ptria da inteligncia est extinta.
Vem para fazer Israel voltar  vida e, se no puder galvanizar Israel, morto pelos fariseus, 
ressuscitar o mundo abandonado ao culto morto dos dolos.
Cristo  o direito do dever!
O homem tem o direito de cumprir o seu dever e no tem outro.
Homem, tens o direito de resistir at a morte a quem quer que te impea de cumprir o teu dever!
Me! teu filho afoga-se; um homem impede-te de socorr-lo; feres esse homem e corres a salvar 
teu filho!... Quem ousar condenar-te?...
Cristo veio para opor o direito do dever ao dever do direito.
O direito para os judeus era a doutrina dos fariseus. E, com efeito, pareciam ter adquirido o 
privilgio de dogmatizar; no eram eles os legtimos herdeiros da sinagoga?
Tinham o direito de condenar o Salvador, e o Salvador sabia que seu direito era o de resistir-lhes.
O Cristo  a protestao viva.
Mas protestao de qu? Da carne contra a inteligncia? No!
Do direito contra o dever? No!
Da atrao fsica contra a atrao moral? No! no!
Da imaginao contra a razo universal? Da loucura contra a sabedoria? No, mil vezes no, 
ainda uma vez!
O Cristo  o dever real que protesta eternamente contra o direito imaginrio.
 a emancipao do esprito que quebra a servido da carne.
 a devoo revoltada contra o egosmo.
 a modstia sublime que responde ao orgulho: Eu no te obedecerei!
O Cristo  vivo, o Cristo  s, o Cristo  triste: por qu?  que a mulher prostituiu-se.
 que a sociedade  acusada de roubo.
 que a felicidade egosta  mpia.
Cristo  julgado, condenado, executado, e ns o adoramos!
Isso se passou num mundo talvez to srio quanto o nosso.
Juizes do mundo em que vivemos, sede atentos e pensai naquele que julgar vossos 
julgamentos.
Mas, antes de morrer, o Salvador legou a seus filhos o smbolo imortal da salvao: a comunho.
Comunho! Unio comum! ltima palavra do Salvador do mundo.
O po e o vinho repartidos entre todos, disse ele,  minha carne e meu sangue!
Ele deu sua carne aos carrascos, seu sangue  terra que quis beb-lo: e por qu?
Para que todos repartam o po da inteligncia e o vinho do amor.  signo da unio dos homens! 
 mesa comum!  banquete da fraternidade e da igualdade! quando enfim sers melhor 
compreendido?
Mrtires da humanidade, vs que destes a vida para que todos tivessem o po que alimenta e o 
vinho que fortifica, tambm no dizeis ao impor a mo sobre esses smbolos da comunho 
universal: Isso  nossa carne e nosso sangue!
E vs, homens do mundo inteiro, vs a quem o Mestre chama irmos: oh, no sentis que o po 
universal  Deus!
Devedores do crucificado.
Vs todos que no estais prontos para dar  humanidade vosso sangue, vossa carne e vossa vida 
no sois dignos da comunho do Filho de Deus! No o faais derramar seu sangue sobre vs, 
pois faria ndoas sobre vossa fronte!
No aproximeis vossos lbios do corao de Deus, ele sentiria vossa mordedura.
No bebais o sangue do Cristo, queimaria vossas entranhas; j  suficiente que ele o tenha 
derramado inutilmente por vs!
 
VIII. O NMERO OITO 
O octonrio  o nmero da reao e da justia equilibrante.
Toda ao produz uma reao.
 a lei universal do mundo.
O cristianismo devia produzir o anticristianismo.
O anticristo  a sombra,  o contraste e a prova do Cristo.
O anticristo j se produzia na Igreja na poca dos apstolos: Aquele que resiste agora resiste at 
a morte, dizia So Paulo, e o filho da iniqidade manifestar-se-.
Os protestantes disseram: O anticristo  o papa.
O papa respondeu: Todo herege  um anticristo.
O anticristo no  mais o papa do que Lutero: o anticristo  o esprito oposto ao do Cristo.
 a usurpao do direito pelo direito;  o orgulho da dominao e o despotismo do pensamento.
 o egosmo pretensamente religioso dos protestantes da mesmssima maneira que a ignorncia 
crdula e imperiosa dos maus catlicos.
O anticristo  o que divide os homens ao invs de os unir;  o esprito de disputa,  a teimosia dos 
doutores e dos sectrios, o desejo mpio de se apropriar da verdade e dela excluir os outros, o de 
forar todo o mundo a sofrer a estreiteza de nossos julgamentos.
O anticristo  o pai que amaldioa ao invs de abenoar, que afasta ao invs de aproximar, que 
escandaliza ao invs de edificar, que condena ao invs de salvar.
 o fanatismo odioso que desencoraja a boa vontade.
 o culto da morte, da tristeza e da fealdade.
Que futuro daremos a nosso filho? disseram os pais insensatos; ele  fraco de esprito e de corpo 
e seu corao no d ainda sinal de vida: faremos dele um padre, a fim de que viva do altar. E 
no compreenderam que o altar no  uma manjedoura para os animais preguiosos.
Por isso, olhai os padres indignos, contemplei esses pretensos servidores do altar. O que  que 
dizem a vossos coraes esses homens gordos ou cadavricos, de olhos inexpressivos, de lbios 
cerrados ou escancarados?
Escutai-os falarem: o que vos ensina esse rudo desagradvel e montono?
Rezam como dormem e sacrificam como comem.
So mquinas de po, de carne, de vinho e de palavras vazias de sentido.
E, quando se regozijam, como ostras ao sol, por estarem sem pensamento e sem amor, diz-se 
que tm paz de esprito.
Tm a paz da besta e, para o homem, a do tmulo  melhor; so os padres da tolice e da 
ignorncia, so os ministros do anticristo.
O verdadeiro padre do Cristo  um homem que vive, que sofre, que ama e que combate pela 
justia. No briga, no reprova, difunde o perdo, a inteligncia e o amor.
O verdadeiro cristo  estranho ao esprito de seita; ele  tudo para todos e v todos os homens 
como filhos de um pai comum que quer salvar a todos; o smbolo inteiro tem para ele somente um 
sentido de doura e amor: deixa para Deus os segredos da justia e s compreende a caridade.
V os maus como doentes de quem  preciso ter pena e cuidar; o mundo com seus erros e seus 
vcios , para ele, o hospital de Deus, e ele quer ser seu enfermeiro.
No se acha melhor que ningum, apenas diz: Enquanto eu for melhor, sirvamos os outros, 
quando for preciso cair e morrer, outros talvez tomaro meu lugar e nos serviro.
 
IX. O NMERO NOVE 
Eis o eremita do tar; eis o nmero dos iniciados e dos profetas.
Os profetas so solitrios, pois seu destino  nunca serem ouvidos.
Vem muito mais que os outros; pressentem as desgraas por vir. Assim, so aprisionados, 
mortos ou vilipendiados, so rejeitados como leprosos, ou deixam-nos morrer de fome.
Depois, quando os eventos ocorrem, dizemos: Foram essas pessoas que nos trouxeram 
desgraa.
Agora, como sempre, na vspera dos grandes desastres, nossas ruas esto plenas de profetas.
Encontrei alguns nas prises; vi outros que morriam esquecidos em pardieiros.
Toda grande cidade viu algum cuja profecia silenciosa era girar incessantemente e andar sempre 
coberto de andrajos no palcio do luxo e da riqueza.
Vi um cujo rosto resplandecia como o do Cristo: tinha as mos calejadas e a roupa do trabalhador 
e moldava epopias como argila. Torcia juntos o gldio do direito e o cetro do dever e, sobre esta 
coluna de ouro e ao, inaugurava o smbolo criador do amor.
Um dia, numa grande assemblia do povo, desceu a rua, segurando um po que partia e 
distribua, dizendo: Po de Deus, faze-te po para todos!
Conheo outro que gritou: No quero mais adorar o Deus do diabo; no quero um carrasco como 
Deus! E acreditou-se que ele blasfemava.
No; mas a energia de sua f transbordava em palavras inexatas e imprudentes.
Dizia ainda, na loucura de sua caridade ferida: Todos os homens so solidrios e expiam uns 
pelos outros, da mesma forma que se merecem uns aos outros.
O castigo para o pecado  a morte.
O prprio pecado , alis, um castigo, e o maior dos castigos. Um grande crime  apenas uma 
grande desgraa.
O pior dos homens  o que se acredita melhor do que os outros.
Os homens apaixonados so escusveis, uma vez que so passivos. Paixo significa sofrimento 
e redeno pela dor.
O que chamamos de liberdade  somente a onipotncia da atrao divina. Os mrtires diziam: 
Mais vale obedecer a Deus que aos homens. 
O menos perfeito ato de amor vale mais ao que a melhor palavra de piedade.
No julgueis, falai pouco, amai e agi.
Um outro que veio disse: Protestai contra as ms doutrinas por boas obras, mas no vos separeis 
de ningum.
Restabelecei todos os altares, purificai todos os templos e estai prontos para a visita do esprito 
do amor.
Que cada um reze seguindo seu rito e comungue com os seus, mas no condeneis os outros.
Uma prtica de religio nunca  desprezvel, pois  o smbolo de um grande e santo pensamento.
Rezar em conjunto  comungar na mesma esperana, na mesma f, na mesma caridade.
O signo no  nada para si prprio:  a f que o santifica.
A religio  o lao mais sagrado e mais forte da associao humana, e fazer um ato de religio  
fazer um ato de humanidade.
Quando os homens compreenderem, enfim, que no se deve discutir sobre coisas que se ignora;
Quando sentirem que um pouco de caridade vale mais que muita influncia e dominao;
Quando todos respeitarem o que o prprio Deus respeita na menor de suas criaturas: a 
espontaneidade da obedincia e a liberdade do dever;
Ento, s haver uma religio no mundo, a religio crist e universal, a verdadeira religio catlica 
que no renegar mais a si prpria por restrio de lugares ou de pessoas.
Mulher, dizia o Salvador  samaritana, em verdade te digo que vir o tempo em que os homens 
no adoraro mais a Deus nem em Jerusalm nem sobre esta montanha, pois Deus  esprito, e 
seus verdadeiros adoradores devem servi-lo em esprito e em verdade.
 
X. NMERO ABSOLUTO DA CABALA 
A chave das sefirotes (ver Dogma e Ritual da Alta Magia).
 
XI. O NMERO ONZE 
Onze  o nmero da fora;  o da luta e do martrio. 
Todo homem que morre por uma idia  um mrtir, pois nele as aspiraes do esprito triunfaram 
sobre os temores dos animais.
Todo homem que morre na guerra  um mrtir, pois morre pelos outros.
Todo homem que morre miservel  um mrtir, pois  como um soldado vencido na batalha da 
vida.
Aqueles que morrem pelo direito so to santos em seu sacrifcio quanto as vtimas do dever e, 
nas grandes lutas da revoluo contra o poder, os mrtires caem dos dois lados.
Sendo o direito a raiz do dever, nosso dever  defender nossos direitos.
O que  um crime?  o exagero do direito. O assassnio e o roubo so negaes da sociedade;  
o despotismo isolado de um indivduo que usurpa a realeza e faz guerra por sua conta e risco.
O crime deve ser sem dvida reprimido, e a sociedade deve defender-se; mas quem poderia ser 
justo o suficiente, grande o suficiente e puro o suficiente para ter a pretenso de punir?
Paz a todos os que tombam na guerra, mesmo na guerra ilegtima, pois arriscaram a cabea e 
perderam-na, e, tendo pago, o que podemos ainda reclamar?
Honra a todos os que combatem bravamente e lealmente! Vergonha somente aos traidores e aos 
covardes!
O Cristo morreu entre dois ladres e levou consigo um deles ao cu.
O reino dos cus  dos lutadores e se ganha  fora.
Deus d sua onipotncia ao amor. Gosta de triunfar sobre o dio, mas vomita a tibieza.
O dever  viver, nem que seja por um instante!
 belo ter reinado por um dia, mesmo por uma hora! Mesmo que seja sob a espada de Dmocles 
ou na fogueira de Sardanapalo.
Mas  mais belo ter visto a seus ps todas as coisas do mundo e ter dito: Serei o rei dos pobres e 
meu trono ser sobre o calvrio.
Existe um homem mais forte do que aquele que mata,  o que morre para salvar.
No existem crimes isolados nem expiaes solitrias.
No existem virtudes pessoais nem devotamentos perdidos.
Quem no for irrepreensvel  cmplice de todo mal, e quem no for absolutamente perverso 
pode participar de todo bem. 
 por isso que um suplcio  sempre uma expiao humanitria, e toda cabea que  recolhida de 
um cadafalso pode ser saudada e honrada como a cabea de um mrtir.
 por isso tambm que o mais nobre e o mais santo dos mrtires podia, ao entrar em sua 
conscincia, achar-se digno da pena que iria suportar e dizer, saudando o gldio pronto a feri-lo: 
Justia seja feita!
Puras vtimas das catacumbas de Roma, judeus e protestantes massacrados por indignos 
cristos.
Padres da Abbaye e dos Carmes, guilhotinados do terror, realistas degolados, revolucionrios 
sacrificados, soldados de nossos grandes exrcitos que semeasses as ossadas pelo mundo, vs 
todos que morresses com sofrimento, ousados de toda sorte, bravos filhos de Prometeu que no 
tendes medo nem do raio nem do abutre, honra a vossas cinzas, paz e venerao a vossas 
memrias! Sois os heris do progresso, os mrtires da humanidade!
 
XII. O NMERO DOZE 
O doze  o nmero cclico;  o do smbolo universal.
Eis uma traduo dos versos feitos para o smbolo mgico e catlico sem restrio:
Creio num s Deus onipotente, nosso pai,
Eterno criador do cu e da terra.
Creio no Rei salvador, chefe da humanidade.
Da divindade, filho, palavra e esplendor.
Concepo viva do eterno amor,
Divindade visvel e luz atuante.
Desejado pelo mundo sempre e em todos os lugares.
Mas que no  um Deus separvel de Deus.
Descido entre ns para libertar a terra,
Santificou a mulher em sua me.
Era o homem celeste, sbio e doce homem.
Nasceu para sofrer e morrer como ns.
Proscrito pela ignorncia, acusado pela inveja,
Morreu na cruz para nos dar a vida.
Todos os que o tomarem por guia e apoio
Podem, por sua doutrina, ser Deus como ele.
Ressuscitou para reinar sobre os tempos;
Deve, da ignorncia, as nuvens dissipar.
Seus preceitos, um dia mais fortes e mais conhecidos,
Sero o julgamento dos vivos e dos mortos.
Creio no Esprito Santo cujos nicos intrpretes
So o esprito e o corao dos santos e dos profetas.
 um sopro de vida e fecundidade
Que provm da humanidade e do Pai.
Creio na famlia nica e sempre santa
Dos justos que o cu reuniu em seu temor.
Creio na unidade do smbolo, do lugar,
Do pontfice e do culto na honra de um s Deus.
Creio que, em nos transformando, a morte nos renove,
E que em ns, como em Deus, a vida  eterna.
 
XIII. O NMERO TREZE 
O treze  o nmero da morte e o do nascimento;  o da propriedade e da herana, da sociedade e 
da famlia, da guerra e dos tratados.
A sociedade tem por bases as trocas do direito, do dever e da f mtua.
O direito  a propriedade; a troca, a necessidade; a boa f, o dever.
Aquele que quer receber mais do que d ou que quer receber sem dar  um ladro.
A propriedade  o direito de dispor de uma parte da fortuna comum; no  nem o direito de 
destruio nem o direito de seqestro.
Destruir ou seqestrar o bem pblico no  possuir,  roubar.
Digo bem pblico, porque o verdadeiro proprietrio de todas as coisas  Deus, que quer que tudo 
seja de todos. O que quer que faais, no levareis convosco ao morrer nenhum dos bens deste 
mundo. Ora, o que vos deve ser tomado um dia no vos pertence realmente. Foi apenas um 
emprstimo.
Quanto ao usufruto,  o resultado do trabalho; mas o prprio trabalho no  uma garantia segura 
de posse, e a guerra pode vir, pela devastao ou pelo incndio, deslocar a propriedade.
Fazei, pois, um bom uso das coisas que perecem, vs que perecereis antes delas!
Levai em considerao que o egosmo provoca o egosmo e que a imoralidade do rico 
corresponder a crimes dos pobres.
O que quer o pobre, se  honesto?
Quer trabalho. Usai vossos direitos, mais fazei vosso dever: o dever do rico  expandir a riqueza; 
o bem que no circula est morto, no entesoureis a morte.
Um sofista disse: A propriedade  o roubo. E queria sem dvida falar da propriedade absorvida, 
subtrada  troca, desviada da utilidade COMUM.
Se esse era seu pensamento, ele poderia ir mais longe e dizer que tal supresso da vida pblica  
um verdadeiro assassnio.
 o crime do aambarcamento, que o instinto pblico sempre viu como um crime de lesa-
majestade humana.
A famlia  uma associao natural que resulta do casamento.
O casamento  a unio de dois seres que o amor uniu e que se prometem um devotamento 
mtuo no interesse dos filhos que podem nascer.
Dois esposos que tm um filho e se separam so mpios. Ser que querem executar o julgamento 
de Salomo e separar tambm o filho?
Prometer-se um amor eterno  puerilidade: o amor sexual  uma emoo sem dvida divina, mas 
acidental, involuntria e transitria; mas a promessa do devotamente recproco  a essncia do 
casamento e o princpio da famlia.
A sano e a garantia dessa promessa devem ser uma confiana absoluta.
Todo cime  uma suspeita, e toda suspeita  um ultraje.
O verdadeiro adultrio  o da confiana: a mulher que se queixa de seu marido perto de outro 
homem; o homem que confia a outra mulher, que no a sua, as aflies ou as esperanas de seu 
corao, esses traem verdadeiramente a f conjugal.
As surpresas dos sentidos s so infidelidades por causa dos arrebatamentos do corao que se 
abandona mais ou menos ao reconhecimento do prazer. Afora isso, so faltas humanas, de que  
preciso envergonhar-se e que se deve esconder: so indecncias que  preciso evitar afastando 
as ocasies, mas que nunca se deve procurar surpreender; os bons costumes so a proscrio 
do escndalo.
Todo escndalo  uma torpeza. No se  indecente porque tem-se rgos que o pudor no 
nomeia; mas se  obsceno quando so mostrados.
Maridos, escondei as chagas de vossa vida a dois; no desnudeis vossas mulheres perante o 
escrnio pblico!
Mulheres, no exibais as misrias do leito conjugal: seria vos nscreverdes na opinio pblica 
como prostitudas.
 preciso uma elevada dignidade de corao para conservar a f conjugal:  um pacto de 
heroismo que somente as grandes almas podem compreender em toda a extenso.
Os casamentos que so rompidos no so casamentos, so acasalamentos.
No que se pode transformar uma mulher que abandona o marido? No  mais esposa, no  
viva; o que  ento?  uma apstata da honra, que  forada a ser licenciosa, porque no  nem 
virgem nem livre.
Um marido que abandona a mulher a prostitui e merece o nome infame que  dado aos amantes 
das jovens perdidas.
O casamento  sagrado, indissolvel, quando existe realmente.
Mas s pode existir para seres de elevada inteligncia e nobre corao.
Os animais no se casam, e os homens que vivem como animais sofrem as fatalidades de sua 
natureza.
Fazem sem cessar tentativas para agir racionalmente. Suas promessas so tentativas e 
simulacros de promessas; seus casamentos, tentativas e simulacros de casamento; seus amores, 
tentativas e simulacros de amor. Quereriam sempre e no querem nunca; comeam sempre e 
no terminam nunca. Para tais pessoas, as leis s se aplicam pela represso.
Tais seres podem ter uma ninhada, mas nunca tm uma famlia: o casamento, a famlia so 
direitos do homem perfeito, do homem emancipado, do homem inteligente e livre.
Por isso, consultar os anais dos tribunais e lede a histria dos parricidas.
Erguei o vu negro de todas estas cabeas cortadas e perguntai-lhes o que pensaram do 
casamento e da famlia, que leite sugaram, que carinhos as enobreceram... Depois tremei, vs 
todos que no dais a vossos filhos o po da inteligncia e do amor, vs todos que no sancionais 
a autoridade paterna pela virtude do bom exemplo...
Esses miserveis eram rfos pelo esprito e pelo corao e vingaram-se de seu nascimento!...
Vivemos num sculo em que mais do que nunca a famlia  desconhecida no que tem de augusta 
e sagrada: o interesse material mata a inteligncia e o amor; as lies da experincia so 
desprezadas, regateia-se as coisas de Deus. A carne insulta o esprito, a fraude ri na cara da 
lealdade. Quanto mais ideal, mais justia: a vida humana ficou rf dos dois lados.
Coragem e pacincia! Este sculo ir para onde devem ir todos os culpados. Vede como  triste! 
O tdio  o vu negro de sua cabea... a carroa anda, e a multido segue estremecendo...
Logo, mais um sculo ser julgado pela histria, e ser escrito num tmulo de runas: Aqui jaz o 
sculo parricida! o sculo carrasco de Deus e de seu Cristo!
Na guerra tem-se o direito de matar para no morrer: mas na batalha da vida, o mais sublime dos 
direitos  o de morrer para no matar.
A inteligncia e o amor devem resistir  opresso at a morte, nunca at o assassnio.
Homem de corao, a vida daquele que te ofendeu est em tuas mos, pois ele  senhor da vida 
dos outros, o qual no faz questo da sua. Massacra-o com tua grandeza: perdoa-o!
- Mas ser proibido matar o tigre que nos ameaa?
- Se for um tigre com rosto humano,  mais belo deixar-se devorar, no entanto, aqui, a moral nada 
prescreve.
- Mas e se o tigre ameaa meus filhos?
- A prpria natureza vos responder.
Harmdio e Aristogiston tinham festas e esttuas na Grcia antiga. A Bblia consagrou os nomes 
de Judite e Aud e uma das mais sublimes figuras do livro santo, Sanso cego e acorrentado que 
sacode as colunas do templo e grita: Que eu morra com os filisteus!
Acreditai, entretanto, que, se Jesus, antes de morrer, tivesse ido a Roma apunhalar Tibrio, teria 
salvado o mundo como fez ao perdoar seus carrascos e at mesmo ao morrer por Tibrio?
Brutus, ao matar Csar, salvou a liberdade romana? Ao matar Calgula, Qureas apenas deu 
lugar a Cludio e a Nero. Protestar contra a violncia com violncia  justific-la e for-la a se 
reproduzir.
Mas triunfar sobre o mal pelo bem, sobre o egosmo pela abnegao, sobre a ferocidade pelo 
perdo:  o segredo do cristianismo e da vitria eterna.
Eu vi o lugar em que a terra sangrava ainda pelo assassnio de Abel e nesse lugar passava um 
regato de pranto.
E mirades de homens avanavam conduzidos pelos sculos, deixando cair lgrimas no regato.
E a eternidade, agachada e morna, contemplava as lgrimas que caam, contava-as uma a uma, 
e nunca havia o suficiente para lavar uma mancha de sangue.
Mas, entre duas multides e duas pocas, veio o Cristo, plida e resplandecente figura.
E, na terra do sangue e das lgrimas, plantou a vinha da fraternidade, e as lgrimas e o sangue 
aspirados pelas raizes da rvore divina tornaram-se a seiva deliciosa da uva que deve embriagar 
de amor os filhos do futuro.
 
XIV. O NMERO CATORZE 
Catorze  o nmero da fuso, da associao e da unidade universal, e  em nome do que 
representa que faremos aqui um apelo s naes, a comear pela mais antiga e mais santa.
Filhos de Israel, por que, em meio ao movimento das naes, continuais imveis como se 
guardsseis os tmulos de vossos pais?
Vossos pais no esto mais aqui, ressuscitaram: pois o Deus de Abrao, de Isaac e de Jac no 
 o Deus dos mortos!
Por que imprimis sempre a vossa gerao a marca sangrenta do cutelo?
Deus no quer mais separar-vos dos outros homens; sede nossos irmos, e comei conosco 
hstias pacficas nos altares que o sangue nunca conspurca.
A lei de Moiss est cumprida: lede vossos livros e compreendei que fostes um povo cego e duro, 
como dizem todos os vossos profetas.
Mas fostes tambm um povo corajoso e perseverante na luta.
Filhos de Israel, tornai-vos filhos de Deus: compreendei e amai!
Deus apagou de vossa fronte a marca de Caim, e os povos ao vos ver passar no diro mais: A 
esto os judeus! gritaro: Abram alas para nossos irmos, abram alas para os que nos 
precederam na f.
E iremos todos os anos comemorar convosco a pscoa na nova Jerusalm.
E descansaremos debaixo de vossa videira e de vossa figueira; pois sereis ainda amigos do 
viajante, em memria de Abrao, de Tobias e dos anjos que os visitavam.
E em memria daquele que disse: Quem ao menor dentre vs recebe a mim me recebe.
Pois doravante no recusareis mais um asilo em vossa casa e em vosso corao a vosso irmo 
Jos que vendesses s naes.
Porque ele se tornou poderoso na terra do Egito onde procurveis po durante os dias de 
esterilidade.
E ele recordou-se de seu pai Jac e de Benjamim, seu jovem irmo; e perdoa vossa inveja e vos 
abraa chorando.
Filhos dos crentes, cantaremos convosco: no existe outro Deus seno Deus e Maom  seu 
profeta.
Dizei com os filhos de Israel: Nenhum Deus existe seno Deus e Moiss  seu profeta!
Dizei com os cristos: No existe outro Deus seno Deus e Jesus Cristo  seu profeta!
Maom  a sombra de Moiss. Moiss  o precursor de Jesus.
O que  um profeta?  um representante da humanidade que procura Deus. Deus  Deus, o 
homem  o profeta de Deus quando faz que acreditemos em Deus.
A Bblia, o Alcoro e o Evangelho so trs tradues diferentes do mesmo livro. H somente uma 
lei como h somente um Deus.
 mulher idealizada,  recompensa dos eleitos, s mais bela do que Maria?
 Maria, filha do Oriente, casta como o puro amor, grande como as aspiraes maternais, vem 
ensinar aos filhos do Isl os mistrios do cu e os segredos da beleza.
Convida-os para o festim da nova aliana, l, em trs tronos resplandecentes de pedrarias, trs 
profetas estaro sentados.
A rvore tuba far de seus galhos recurvados um dossel para a mesa celeste.
A esposa ser branca como a lua e rubra como o sorriso da manh.
Todos os povos acorrero para v-Ia e no temero mais passar Al Sirah, pois, sobre essa ponte 
cortante como uma lmina de barbear, o Salvador estender sua cruz e vir estender a mo aos 
que vacilarem, e aos que carem a esposa estender seu vu perfumado e os trar em sua 
direo.
Povos, batei palmas e aplaudi o ltimo triunfo do amor! Somente a morte ficar morta e somente o 
inferno ser queimado.
 naes da Europa, a quem o Oriente estende as mos, uni-vos para expulsar os ursos do 
Norte! Que a ltima guerra faa triunfar a inteligncia e o amor, que o comrcio entrelace os 
braos do mundo e que uma civilizao nova, sada do Evangelho armado, rena todos os 
rebanhos da terra sob o cajado do mesmo pastor!
Tais sero as conquistas do progresso; tal  o objetivo para o qual nos empurra todo o movimento 
do mundo.
O progresso  o movimento; e o movimento  a vida.
Negar o progresso  afirmar o nada e deificar a morte.
O progresso  a nica resposta que a razo pode opor s objees relativas  existncia do mal.
Nada est bem, mas tudo estar bem um dia. Deus inicia e acabar sua obra.
Sem o progresso, o mal seria imutvel como Deus!
O progresso explica as runas e consola Jeremias que chora.
As naes sucedem-se como os homens e nada  estvel porque tudo caminha em direo da 
perfeio.
O grande homem que morre lega a sua ptria o fruto de seu trabalho; a grande nao que se 
extingue na terra transfigura-se numa estrela para iluminar as obscuridades da histria.
O que ele escreveu por suas aes fica gravado no livro eterno; acrescentou uma pgina  bblia 
do gnero humano.
No digais que a civilizao  m; pois assemelha-se ao calor mido que amadurece as colheitas, 
desenvolve rapidamente os princpios da vida e os princpios da morte, mata e vivifica.
 como o anjo do julgamento que separa os maus dos bons.
A civilizao transforma em anjos de luz os homens de boa vontade e coloca o egosta abaixo da 
besta;  a corrupo dos corpos e a emancipao das almas.
O mundo mpio dos gigantes elevou ao cu a alma de Henoch; acima das bacanais da Grcia 
primitiva eleva-se o esprito harmonioso de Orfeu.
Scrates e Pitgoras, Plato e Aristteles resumem, ao explic-las, todas as aspiraes do 
mundo antigo; as fbulas de Homero permanecem mais verdadeiras do que a histria, e s nos 
restam das grandezas de Roma os escritos imortais que elaborou o sculo de Augusto.
Assim, Roma talvez s tenha abalado o mundo com suas guerreiras convulses para gerar seu 
Virglio.
O cristianismo  o fruto das meditaes de todos os sbios do Oriente que revivem em Jesus 
Cristo.
Assim, a luz dos espritos nasceu onde nasce o sol do mundo; o Cristo conquistou o Ocidente, e 
os doces raios do sol da sia tocaram os gelos do Norte.
Movidos por esse calor desconhecido, formigueiros de homens novos espalharam-se por um 
mundo exaurido; as almas dos povos mortos brilharam sobre os povos rejuvenescidos e 
aumentaram neles o esprito de vida.
H no mundo uma nao que se chama franqueza e liberdade, pois essas duas palavras so 
sinnimos do nome Frana.
Essa nao sempre foi, de algum modo, mais catlica do que o papa e mais protestante do que 
Lutero.
A Frana das cruzadas, a Frana dos trovadores e das canes, a Frana de Rabelais e de 
Voltaire, a Frana de Bossuet e de Pascal, ela  a sntese dos povos; ela consagra a aliana da 
razo e da f, da revoluo e do poder, da crena mais terna e da dignidade humana mais altiva.
Por isso, vede como ela caminha, como se agita, como luta, como cresce!
Freqentemente enganada e ferida, nunca batida, entusiasta com seus triunfos, audaciosa em 
seus reveses, ela ri, canta, morre e ensina ao mundo a f na sua imortalidade.
A velha guarda no se rende, mas tambm no morre. Confiai no entusiasmo de nossos filhos, 
que querem ser um dia, eles tambm, soldados da velha guarda!
Napoleo no  mais um homem,  o prprio gnio da Frana,  o segundo salvador do mundo, e 
tambm deu como smbolo a seus apstolos a cruz!
Santa Helena e o Glgota so os marcos da nova civilizao, so os pilares de uma imensa 
arcada que o arco-ris do ltimo dilvio forma e que lana uma ponte entre dois mundos.
E pensareis que a espora de um trtaro quebrar um dia o pacto de nossas glrias, o testamento 
de nossa liberdade!
Dizei antes que voltaremos a ser crianas e retornaremos ao seio de nossas mes!
Caminha!, caminha!, diz a voz divina a Aasveros. Avana! avana! grita para a Frana o destino 
do mundo!... E para onde vamos? Para o desconhecido, para o abismo talvez; no importa! Mas 
para o passado, para os cemitrios do esquecimento, mas para os cueiros que nossa prpria 
infncia rasgou, mas para a imbecilidade e a ignorncia das primeiras idades... nunca! nunca!
 
XV. O NMERO QUINZE 
Quinze  o nmero do antagonismo e da catolicidade.
O cristianismo divide-se agora em duas Igrejas: a Igreja civilizadora e a Igreja brbara, a Igreja 
progressista e a Igreja estacionria.
Uma  ativa, a outra  passiva; uma sempre condenou as naes e os governos, uma vez que os 
reis a temem; a outra submeteu-se a todos os despotismos e s pode ser um instrumento de 
servido.
A Igreja ativa realiza Deus pelos homens e s ela cr na divindade do Verbo humano, intrprete 
do Verbo de Deus.
O que , afinal de contas, a infalibilidade do papa, seno a autocracia da inteligncia confirmada 
pelo sufrgio universal da f?
A esse respeito, dir-se-, o papa deveria ser o primeiro gnio de seu sculo. Por qu?  melhor, 
na realidade, que ele seja um esprito comum. Sua supremacia no  mais divina, porque , de 
algum modo, mais humana.
Os acontecimentos no falam mais alto do que os rancores e as ignorncias irreligiosas? No 
vedes a Frana catlica sustentar com uma mo o papado desfalecido e com a outra segurar a 
espada para combater na liderana do exrcito do progresso?
Catlicos, israelitas, turcos, protestantes j combateram sob a mesma bandeira; o crescente uniu-
se  cruz latina, e juntos lutamos contra a invaso dos brbaros e contra sua embrutecida 
ortodoxia.
 para sempre um fato consumado. Ao admitir dogmas novos, a ctedra de So Pedro acaba de 
se pronunciar solenemente progressiva.
A ptria do cristianismo catlico  a da cincia e das belas-artes, e o Verbo eterno do Evangelho 
vivo e encarnado numa autoridade visvel  ainda a luz do mundo.
Silncio pois aos fariseus da nova sinagoga! Silncio s tradies odiosas da escola, ao 
presbiterianismo arrogante, ao jansenismo absurdo e a todas estas vergonhosas e supersticiosas 
interpretaes do dogma eterno, to justamente estigmatizadas pelo gnio impiedoso de Voltaire!
Voltaire e Napoleo morreram catlicos. E ser que sabeis o que deve ser o catolicismo do 
futuro?
Ser o dogma evanglico posto  prova como ouro pela crtica dissolvente de Voltaire, e realizado 
no governo do mundo pelo gnio de um Napoleo cristo!
Os que no quiserem caminhar, os acontecimentos os arrastaro ou passaro sobre eles!
Imensas calamidades podem ainda pesar sobre o mundo. Os exrcitos do Apocalipse um dia 
talvez desencadearo os quatro flagelos. O santurio ser depurado. A santa e severa pobreza 
enviar seus apstolos para sustentar todo aquele que cambalear, reanimar aquele que estiver 
fatigado e espalhar o leo santo em todas as feridas!
O despotismo e a anarquia, esses dois monstros vidos de sangue, dilacerar-se-o e aniquilar-se-
o um ao outro depois de serem mutuamente sustentados, por pouco tempo, pelo prprio 
entrelaamento de sua luta.
E o governo do futuro ser aquele cujo modelo  mostrado na natureza pela famlia, no ideal 
religioso pela hierarquia dos pastores. Os eleitos devem reinar com Jesus Cristo durante mil anos, 
dizem as tradies apostlicas: ou seja, durante uma seqncia de sculos, a inteligncia e o 
amor dos homens de elite dedicados aos encargos do poder administraro os interesses e os 
bens da famlia universal.
Ento, segundo a promessa do Evangelho s haver um rebanho e um pastor.
 
XVI. O NMERO DEZESSEIS 
Dezesseis  o nmero do templo.
Digamos o que ser o templo do futuro.
Quando o esprito de inteligncia e de amor tiver se revelado, toda trindade manifestar-se- em 
sua verdade e em sua glria.
A humanidade transformada em rainha e, como que ressuscitada, ter a graa da infncia em sua 
poesia, o vigor da juventude em sua razao e a sabedoria da idade madura em suas obras.
Todas as formas que o pensamento divino revestiu sucessivamente renascero imortais e 
perfeitas.
Todos os traos que a arte sucessiva das naes tinha esboado reunir-se-o e formaro a 
imagem completa de Deus.
Jerusalm reconstruir o templo de Jeov de acordo com o modelo profetizado por Ezequiel; e o 
Cristo, novo e eterno Salomo, nele cantar, debaixo de lambris de cedro e de ciprestes, suas 
npcias com a santa liberdade, a jovem esposa do cntico.
Mas Jeov ter largado seu raio para abenoar com as duas mos o noivo e a noiva: aparecer 
sorridente entre os dois esposos e alegrar-se- por ser chamado de pai.
Entretanto, a poesia do Oriente, em suas mgicas lembranas, ainda o chamar de Brama e 
Jpiter. A ndia ensinar a nossos climas encantados as fbulas maravilhosas de Vishnu, e 
experimentaremos na fronte ainda ensangentada de nosso Cristo bem-amado a tripla coroa de 
prolas da mstica trimurti. Vnus purificada sob o vu de Maria no mais chorar seu Adnis.
O esposo ressuscitou para no mais morrer, e o javali infernal encontrou a morte em sua 
passageira vitria.
Reerguei-vos, templos de Delfos e feso! O deus da luz e das artes tornou-se o Deus do mundo, 
e o verbo de Deus concorda em ser chamado de Apolo! Diana no reinar mais como viva nos 
campos solitrios da noite; seu crescente prateado est agora sob os ps da esposa.
Mas Diana no foi vencida por Vnus; seu Endimio acaba de despertar, e a virgindade vai 
orgulhar-se de ser me!
Sai da tumba,  Fdias, e alegra-te com a destruio de teu primeiro Jpiter:  agora que vais 
gerar um Deus!
 Roma! Que teus templos reergam-se ao lado de tuas baslicas; s ainda a rainha do mundo e 
panteo das naes; que Virglio seja coroado no capitlio pelas mos de So Pedro; e que o 
Olimpo e o Carmelo unam suas divindades sob o pincel de Rafael!
Transfigurai-vos, antigas catedrais de nossos pais; arremessei at as nuvens vossas flechas 
cinzeladas e vivas, e que a pedra conte por figuras animadas as sombrias lendas do Norte, 
alegradas pelos aplogos dourados e maravilhosos do Alcoro!
Que o Oriente adore Jesus Cristo em suas mesquitas, e que nos minaretes de uma nova Santa 
Sofia a cruz se eleve em meio ao crescente!
Que Maom liberte a mulher para dar ao verdadeiro crente as huris com que tanto sonhou, e que 
os mrtires do Salvador ensinem castas carcias aos belos anjos de Maom.
Toda a terra revestida com os ricos ornamentos que todas as artes lhe bordaram ser ento um 
templo magnfico, cujo padre eterno ser o homem!
Tudo o que foi verdadeiro, tudo o que foi belo, tudo o que foi doce nos sculos passados reviver 
gloriosamente nessa transfigurao do mundo.
E a forma bela continuar inseparvel da idia verdadeira, como o corpo ser um dia inseparvel 
da alma, quando a alma, tendo alcanado todo o seu poder, ter feito para si um corpo  sua 
imagem.
Esse ser o reino do cu sobre a terra, e os corpos sero os templos da alma, da mesma forma 
que o universo regenerado ser o templo de Deus.
E os corpos e as almas, e a forma e o pensamento, e o universo inteiro sero a luz, o Verbo e a 
revelao permanente e visvel de Deus. Amm! Assim seja!
 
XVII. O NMERO DEZESSETE 
Dezessete  o nmero da estrela;  o da inteligncia e do amor.
Inteligncia guerreira, audaciosa, cmplice do divino Prometeu, primognita de Lcifer, louvor a ti 
em tua audcia! Quiseste saber para ter, desafiaste todos os troves e afrontaste todos os 
abismos!
Inteligncia, tu a quem os pobres pecadores amaram at o delrio, at o escndalo, at a 
reprovao! Direito divino do homem, essncia e alma da liberdade, louvor a ti! Pois perseguiram-
te pisoteando, por ti, todos os sonhos mais caros de sua imaginao, os fantasmas mais amados 
de seu corao!
Por ti foram repelidos e proscritos; por ti suportaram a priso, o desenlace, a fome, a sede, o 
abandono daqueles que amavam e as sombrias tentaes do desespero! Eras o direito deles, e 
eles conquistaram-te! Agora eles podem chorar e crer, podem submeter-se e rezar!
Caim arrependido teria sido maior do que Abel:  o legtimo orgulho satisfeito que tem o direito de 
se fazer humilde!
Creio porque sei por que e como  preciso crer; creio porque amo e porque no temo mais nada. 
Amor! amor! redentor e reparador sublime; tu que fazes tanta felicidade de tantas torturas, tu, o 
sacrificador do sangue e das lgrimas, tu que s a prpria virtude e o salrio da virtude; fora da 
resignao, liberdade da obedincia, alegria das dores, vida da morte, louvor, louvor e glria a ti! 
Se a inteligncia  uma lmpada, s a sua chama; se  o direito, s o dever; se  a nobreza, s a 
felicidade! Amor pleno de orgulho e pudor nos mistrios, amor divino, amor oculto, amor insano e 
sublime, Tit que toma o cu com duas mos e que o fora a descer, ltimo e inefvel segredo da 
viuvez crist, amor eterno, amor infinito e ideal que seria suficiente para criar mundos, amor! 
amor! bno e glria a ti! Glria s inteligncias que se encobrem para no ofender os olhos 
doentes! Glria ao direito que se transforma inteiramente em dever e que se torna a devoo! s 
almas vivas que amam e consumam-se sem serem amadas! aos que sofrem e no fazem nada 
sofrer, aos que perdoam os ingratos, aos que amam seus inimigos! Oh! felizes sempre, felizes 
mais do que nunca os que se empobrecem e que se esgotam para se dar! Felizes as almas que 
fazem sempre tua paz! Felizes os coraes puros e simples que no se acham melhor do que 
ningum! Humanidade minha me, humanidade filha e me de Deus, humanidade concebida sem 
pecado, Igreja universal, Maria! Feliz de quem tudo ousou para te conhecer e te entender, e de 
quem est pronto a tudo sofrer para te servir e te amar!
 
XVIII. O NMERO DEZOITO 
Esse nmero  o do dogma religioso, que  toda poesia e todo mistrio.
O Evangelho diz que, quando da morte do Salvador, o vu do templo rasgou-se, porque essa 
morte manifestou o triunfo da devoo, o milagre da caridade, o poder de Deus no homem, a 
humanidade divina e a divindade humana, o ltimo e o mais sublime dos arcanos, a ltima palavra 
de todas as iniciaes.
Mas o Salvador sabia que no seria compreendido a princpio, e disse: No suportareis agora 
toda a luz de minha doutrina; mas, quando se manifestar o esprito de verdade, ele vos ensinar 
toda verdade e sugerir o sentido do que eu vos disse.
Ora, o esprito de verdade  o esprito de cincia e de inteligncia, o esprito de fora e de 
conselho.
Foi esse esprito que se manifestou solenemente na Igreja romana, quando ela declarou nos 
quatro artigos do decreto de 12 de dezembro de 1845: 
1 Que, se a f for superior  razo, a razo deve apoiar as inspiraes da f;
2 Que a f e a cincia tem cada uma seu domnio separado, e que uma no deve usurpar as 
funes da outra;
3 Que  prprio da f e da graa no enfraquecer, mas, ao contrrio, afirmar e desenvolver a 
razo;
4 Que o concurso da razo, que examina no as decises da f mas as bases naturais e 
racionais da autoridade que decide, longe de prejudicar a f, no poderia seno ser-lhe til; em 
outras palavras, que a f, perfeitamente racional em seus princpios, no deve temer, mas deve, 
ao contrrio, desejar o exame sincero da razo.
Semelhante decreto  toda uma revoluo religiosa acabada, e a inaugurao do Esprito Santo 
na terra.
 
XIX. O NMERO DEZENOVE 
 o nmero da luz.
 a existncia de Deus provada pela prpria idia de Deus.
Ou  preciso dizer que o Ser imenso  um tmulo universal, ou que se move automaticamente, 
uma forma sempre morta e cadavrica, ou  preciso admitir o princpio absoluto da inteligncia e 
da vida.
A luz universal est morta ou viva? Fatalmente dedicada  obra da destruio ou 
providencialmente dirigida para a criao universal?
Se Deus no existe, a inteligncia  apenas uma decepo pois ela carece de absoluto e seu 
ideal  uma mentira.
Sem Deus, o ser  um nada que se afirma, e a vida, uma morte que se disfara.
A luz  uma noite sempre enganada pela miragem dos sonhos.
O primeiro e o mais essencial ato de f  pois este.
O Ser , e o ser do ser, a verdade do ser  Deus.
O Ser  vivo com inteligncia, e a inteligncia viva do Ser absoluto  Deus.
A luz  real e vivificante; ora, a realidade e a vida de toda luz  Deus.
O Verbo da razo universal  uma afirmao e no uma negao.
Cegos os que no vem que a luz fsica  apenas o instrumento do pensamento!
Somente o pensamento v a luz e a produz empregando-a em benefcio prprio.
A afirmao do atesmo  o dogma da noite eterna; a afirmao de Deus  o dogma da luz!
Vamos parar aqui, no dcimo nono nmero, embora o alfabeto sagrado tenha vinte e duas letras; 
as dezenove primeiras so as chaves da teologia oculta. As outras so as chaves da natureza; 
voltaremos a elas na terceira parte desta obra.
Resumamos o que dissemos de Deus citando uma bela evocao emprestada da liturgia israelita. 
 uma pgina do Kether-Malkuth, poema cabalstico do rabino Salomo, filho de Gabirol.
"Sois um, o comeo de todos os nmeros, o fundamento de todos os edifcios; sois um e, no 
segredo de vossa unidade, os homens mais sbios perdem-se porque no a conhecem. Sois um, 
e vossa unidade nunca diminui, nem aumenta, nem sofre nenhuma alterao. Sois um, mas no 
como o um em matria de clculo, pois vossa unidade no admite nem multiplicao, nem 
mudana, nem frmula. Sois um, para quem nenhuma de minhas fantasias pode fixar definio: 
eis por que vigiarei minha conduta, evitando cometer faltas com a lngua. Sois um enfim, cuja 
excelncia  to elevada que no pode cair de maneira alguma, e no como em um que pode 
deixar de ser.
"Sois existente; entretanto, o entendimento e a vista dos mortais no podem atingir vossa 
existncia nem colocar em vs o onde, o como e o porqu. Sois existente, mas em vs mesmo, 
uma vez que outro no pode existir convosco. Sois existente desde antes do tempo e em lugar 
algum. Sois enfim existente e vossa existncia  to oculta e to profunda que ningum pode 
descobri-Ia ou penetrar seu segredo.
"Sois vivo, mas no desde um tempo conhecido e fixo; sois vivo, mas no por um esprito e uma 
alma; pois sois a alma de todas as almas. Sois vivo, mas no como as vidas dos mortais, que so 
comparadas a um sopro, e cujo fim ser o alimento dos vermes. Sois vivo, e aquele que puder 
atingir vossos mistrios desfrutar as delcias eternas e viver para sempre.
"Sois grande, e perto de vossa grandeza todas estas grandezas se curvam, e tudo o que h de 
mais excelente torna-se defeituoso. Sois grande, acima de qualquer imaginao, e elevai-vos 
acima de todas as hierarquias celestes. Sois grande, acima de toda grandeza, e sois exaltado 
acima de qualquer louvor. Sois forte, e nenhuma de vossas criaturas far as obras que fazeis e 
nem sua fora poder ser comparada  vossa. Sois forte, e  a vs que pertence essa fora 
invencvel que no muda nem se altera nunca. Sois forte, e por vossa magnanimidade perdoais 
no momento de vossa mais ardente clera, e mostrai-vos paciente para com os pecadores. Sois 
forte, e vossas misericrdias que sempre existiram estendem-se para todas as vossas criaturas. 
Sois a luz eterna que as almas puras vero e que a nuvem dos pecados ocultar aos olhos dos 
pecadores. Sois a luz que  oculta neste mundo e visvel no outro, onde a glria do Senhor se 
mostra. Sois soberano, e os olhos do entendimento que desejam vervos esto inteiramente 
espantados por s poderem atingir de vs uma parte e nunca o todo. Sois o Deus dos deuses, 
testemunham-no todas vossas criaturas; e em honra desse grande nome todas devem render-vos 
culto. Sois Deus, e todas as criaturas so vossas servidoras e vossas adoradoras; vossa glria 
no  embaada mesmo que outros sejam adorados, porque a inteno deles  a de se dirigir a 
vs; so como cegos, cujo objetivo  seguir o grande caminho, e perdem-se. Um afoga-se num 
poo e o outro cai numa fossa; todos, em geral, acreditam ter alcanado seus desejos e, no 
entanto, cansaram-se em vo. Mas vossos servidores so como clarividentes que andam num 
caminho seguro, e que dele nunca se afastam, nem  direita, nem  esquerda, at que entrem no 
adro do palcio do rei. Sois Deus que sustentais por vossa deidade todos os seres e que 
socorreis por vossa unidade todas as criaturas. Sois Deus, e no h diferena entre vossa 
deidade, vossa unidade, vossa eternidade e vossa existncia; pois tudo  um mesmo mistrio; e, 
embora os nomes variem, tudo retorna ao mesmo. Sois sbio, e essa cincia, que  a fonte da 
vida, emana de vs mesmo; e em comparao com vossa cincia os homens mais sbios so 
estpidos. Sois sbio e o antigo dos antigos, e a cincia sempre alimentou-se convosco. Sois 
sbio, e no aprendesses a cincia com ningum, e tampouco a adquirisses de outro seno de 
vs. Sois sbio e, como um operrio e um arquiteto, reservasses de vossa cincia uma divina 
vontade, num tempo marcado para atrair o ser do nada; do mesmo modo que a luz que sai dos 
olhos  atrada de seu prprio centro sem nenhum instrumento ou ferramenta. Essa divina 
vontade cavou, traou, purificou e fundiu; ordenou ao nada abrir-se, ao ser aprofundar-se e ao 
mundo estender-se. Mediu os cus com o palmo, com seu poder reuniu o pavilho das esferas, 
com o lao de seu poder cerrou as cortinas das criaturas do universo e, tocando com sua fora a 
ponta da cortina da criao, uniu a parte superior  inferior."
Extrado das oraes do Kippur
Demos a essas ousadas especulaes cabalsticas a nica forma que lhes convm, a da poesia 
ou da inspirao do corao.
As almas crentes no precisam das hipteses racionais contidas nessa explicao nova das 
figuras da Bblia, mas os coraes sinceros e afligidos pela dvida, e que a crtica do sculo 
dezoito atormenta, compreendero ao l-la que a prpria razo sem a f pode encontrar no livro 
sagrado outra coisa alm de escolhos; se os vus com que os textos divinos so cobertos 
projetam uma grande sombra, essa sombra  to maravilhosamente desenhada pelas oposies 
da luz que se torna a nica imagem inteligvel de um ideal divino.
Ideal incompreensvel como o infinito e indispensvel como a prpria essncia do mistrio.
 
 
ARTIGO II
Soluo do segundo problema 
A VERDADEIRA RELIGIO 
A religio existe na humanidade como no amor.
 nica como ele.
Como ele, existe ou no existe nesta ou naquela alma; mas, seja aceita ou negada, est na 
humanidade, est, portanto, na vida, est na natureza,  incontestvel diante da cincia e mesmo 
diante da razo.
A verdadeira religio  a que sempre existiu, que existe e que sempre existir.
Podem-nos dizer que a religio  isto ou aquilo; a religio  o que . A religio  ela, e as falsas 
religies so supersties dela copiadas, dela emprestadas, sombras mentirosas dela prpria.
Pode-se dizer da religio o que se diz da arte verdadeira. As tentativas brbaras de pintura ou 
escultura so tentativas da ignorncia para se chegar  verdade. A arte prova-se por si, brilha 
com seu prprio esplendor,  nica e eterna como a beleza.
A verdadeira religio  bela, e  por esse carter divino que se impe aos respeitos da cincia e 
ao assentimento da razo.
A cincia no poderia, sem temeridade, afirmar ou negar as hipteses do dogma que so 
verdades para a f; mas pode reconhecer, em certos aspectos, a nica religio verdadeira, ou 
seja, a nica que merece o nome de religio, reunindo todos os aspectos que convm a essa 
grande e universal aspirao da alma humana.
Uma s coisa evidentemente divina manifestou-se para todos no mundo.
 a caridade.
A obra da verdadeira religio deve ser a de produzir, conservar e difundir o esprito de caridade. 
Para alcanar esse objetivo,  preciso que ela prpria tenha todas as caractersticas da caridade, 
de modo que se possa bem defini-la, nomeando-a de caridade organizada.
Ora, quais so as caractersticas da caridade?
 So Paulo quem vai nos ensinar.
A caridade  paciente.
Paciente como Deus, porque ela  eterna como ele. Sofre as perseguies e nunca persegue 
ningum.
 benevolente e indulgente, chamando para si os pequenos e no rechaando os grandes.
No  invejosa. A quem e a que invejaria, no tem a melhor parte que nunca lhe ser tirada?
No  nem inquieta e nem intrigante.
No tem orgulho, ambio, egosmo, ira.
Nunca supe o mal e nunca triunfa pela injustia, pois pe toda sua alegria na verdade.
Suporta tudo sem jamais tolerar o mal.
Cr em tudo, sua f  simples, submissa, hierrquica e universal.
Sustenta tudo, e nunca impe fardos que no carregasse antes.
A religio  paciente,  a religio dos grandes trabalhadores do pensamento:  a religio dos 
mrtires.
 benevolente como o Cristo e os apstolos, como os Vicentes de Paulo e os Fenelons.
No deseja nem as dignidades nem os bens da terra.  a religio dos pais do deserto, de So 
Francisco de Assis e de So Bruno, das irms de caridade e dos irmo de So Joo de Deus.
No  nem inquieta nem intrigante, ela reza, faz o bem e espera.  humilde,  doce, s inspira a 
devoo e o sacrifcio. Tem, enfim, todas as caractersticas da caridade, porque  a prpria 
caridade.
Os homens, ao contrrio, so impacientes, perseguidores, invejosos, cruis, ambiciosos, injustos 
e mostram-se como tais em nome dessa religio que puderam caluniar, mas que nunca obrigaro 
a mentir. Os homens passam, e a verdade  eterna.
Filha da caridade e criando por sua vez a caridade, a verdadeira religio  essencialmente 
realizadora; acredita nos milagres da f, porque os cumpre todos os dias quando faz a caridade. 
Uma religio que faz a caridade pode vangloriar-se de realizar todos os sonhos do amor divino. 
Assim, a f da Igreja hierrquica transforma o mistrio em realismo pela eficcia de seus 
sacramentos. No mais signos, no mais figuras que no tenham sua fora na graa e que no 
dem realmente o que prometem. A f anima tudo, torna tudo de algum modo visvel e palpvel; 
as prprias parbolas de Jesus Cristo tomam um corpo e uma alma. Mostra-se em Jerusalm a 
casa do mau rico. Os simbolismos esparsos das religies primitivas, abandonados pela cincia e 
privados da vida da f, assemelhavam-se a essas ossadas embranquecidas que cobriam o 
campo de Ezequiel. O esprito do Salvador, o esprito de f, o esprito de caridade sopraram esse 
p, e tudo o que estava morto recuperou uma vida to real que no se reconhece mais nesses 
vivos de hoje os cadveres de ontem. 

Grande Pantculo tirado da viso de So Joo
E por que seriam reconhecidos, uma vez que o mundo renovou-se, uma vez que So Paulo 
queimou no feso os livros dos hierofantes. So Paulo era pois um brbaro, e no estava 
cometendo um atentado contra a cincia? No, mas ele queimava os sudrios dos ressuscitados 
para faz-los esquecer a morte. Por que ento lembramos hoje as origens cabalsticas do 
dogma? Por que ento lembramos hoje as origens cabalsticas do dogma? Por que relacionamos 
as figuras da Bblia com as alegorias de Hermes? Ser para condenar So Paulo, para trazer a 
dvida aos crentes? Certamente no, pois os crentes no necessitam de nosso livro, no o lero, 
no o querero compreender. Mas queremos mostrar  multido inumervel dos que duvidam que 
a f relaciona-se  razo de todos os sculos,  cincia de todos os sbios. Queremos forar a 
liberdade humana e respeitar a autoridade divina, a razo a reconhecer as bases da f, para que 
a f e a autoridade, por sua vez, nunca mais proscrevam nem a liberdade nem a razo.
 
ARTIGO III
Soluo do terceiro problema 
RAZO DOS MISTRIOS 
Sendo a f a aspirao ao desconhecido, o objeto da f  absoluta e necessariamente o mistrio.
Para formular suas aspiraes, a f  forada a emprestar do conhecido aspiraes e imagens.
Mas ela especializa o emprego dessas formas ao reuni-las de uma maneira impossvel na ordem 
conhecida. Tal  a profunda razo do aparente absurdo do simbolismo.
Demos um exemplo:
Se a f dizia que Deus  impessoal, poder-se-ia concluir da que Deus  apenas uma palavra ou, 
no mximo, uma coisa.
Se ela dizia que Deus  uma pessoa, o infinito inteligente seria representado sob a forma 
necessariamente limitada de um indivduo.
Ela diz Deus  um em trs pessoas para exprimir que se concebe em Deus a unidade e o 
nmero.
A frmula do mistrio exclui necessariamente a prpria inteligncia dessa frmula, na medida em 
que empresta do Verbo coisas conhecidas, pois se fosse compreendida exprimiria o conhecido e 
no o desconhecido.
Pertenceria, ento,  cincia e no mais  religio, isto ,  f.
O objeto da f  um problema de matemtica onde o x escapa aos procedimentos de nossa 
lgebra.
As matemticas absolutas provam somente a necessidade e, por conseguinte, a existncia desse 
conhecido representado pelo x intraduzvel.
Ora, por mais que a cincia avance em seu progresso indefinido, mas sempre relativamente finito, 
nunca encontrar na lngua do finito a expresso completa do infinito. O mistrio , portanto, 
eterno.
Fazer entrar na lgica do conhecido os termos de uma profisso de f  faz-los sair da f que 
tem por bases positivas o ilogismo, isto , a impossibilidade de explicar logicamente o 
desconhecido.
Para os israelitas, Deus est separado da humanidade, no vive nas criaturas,  um egosmo 
infinito.
Para os muulmanos, Deus  uma palavra diante da qual nos prosternamos sobre a f de 
Maom.
Para os cristos, Deus revelou-se na humanidade, prova-se pela caridade, reina pela ordem que 
constitui a hierarquia.
A hierarquia  guardi do dogma, cuja letra e cujo esprito quer que respeitemos. Os sectrios 
que, em nome de sua razo, ou melhor, de sua desrazo individual, tocaram o dogma, perderam, 
por esse mesmo fato, o esprito de caridade, excomungaram a si prprios.
O dogma catlico, isto , universal, merece esse belo nome resumindo todas as aspiraes 
religiosas do mundo; ele afirma a unidade de Deus com Moiss e Maom, reconhece em si a 
trindade infinita da gerao eterna com Zoroastro, Hermes e Plato, concilia com o Verbo nico 
de So Joo os nmeros vivos de Pitgoras, eis o que a cincia e a razo podem constatar.  
portanto diante da prpria razo e diante da cincia o dogma mais perfeito, isto , o mais perfeito 
que alguma vez se produziu no mundo. Que a cincia e a razo nos concedam isso, no lhes 
pediremos mais nada.
Substituir o despotismo legtimo da lei pelo arbitrrio humano, pr, em outras palavras, a tirania no 
lugar da autoridade  obra de todos os protestantismos e de todas as democracias. O que os 
homens chamam de liberdade  a sano da autoridade ilegtima ou, antes, a fico do poder no 
sancionado pela autoridade.
Joo Calvino protestava contra as fogueiras de Roma para se dar o direito de queimar Miguel 
Servet. Todo povo que se libertou de um Carlos I ou de um Lus XVI submeteu-se a um 
Robespierre ou a um Cromwel, e existe um antipapa mais ou menos absurdo por trs de todos os 
protestos contra o papado legtimo.
A divindade de Jesus Cristo s existe na Igreja catlica, para a qual ele transmite 
hierarquicamente sua vida e seus poderes divinos. Essa divindade  sacerdotal e real por 
comunho, mas fora dessa comunho toda afirmao da divindade de Jesus Cristo  idoltrica, 
porque Jesus Cristo no poderia ser um Deus separado.
Pouco importa  verdade catlica o nmero dos protestantes.
Se todos homens fossem cegos, essa seria uma razo para negar a existncia do sol?
A razo, protestando contra o dogma, prova suficientemente que no o inventou, mas  forada a 
admirar a moral que resulta desse dogma. Ora, se a moral  uma luz,  preciso que o dogma seja 
um sol, a claridade no vem das trevas.
Entre os abismos do politesmo e do desmo absurdo e limitado, s h um meio possvel: o 
mistrio da santssima trindade.
Entre o atesmo especulativo e o antropomorfismo s h um meio possvel: o mistrio da 
encarnao.
Entre a fatalidade imoral e a responsabilidade draconiana que decidiria pela danao de todos os 
seres, s h um meio possvel: o mistrio da redeno.
A trindade  a f.
A encarnao  a esperana.
A redeno  a caridade.
A trindade  a hierarquia.
A encarnao  a autoridade divina da Igreja.
A redeno  o sacerdcio nico, infalvel, indefectvel e catlico.
Somente a Igreja catlica possui um dogma invarivel e encontra-se por sua prpria constituio 
na impossibilidade de corromper a moral; ela no inova, explica. Assim, por exemplo, o dogma da 
imaculada concepo no  novo, estava inteiramente contido no Thotokon do conclio de feso, 
e o Thotokon  uma conseqncia rigorosa do dogma catlico da encarnao.
Da mesma forma, a Igreja catlica no faz excomunhes, ela as declara e s ela as pode 
declarar, porque  a nica guardi da unidade.
Fora da barca de Pedro, s h o abismo. Os protestantes assemelham-se s pessoas que, 
cansadas da arfagem, jogar-se-iam na gua para evitar o enjo.
E da catolicidade, tal qual  constituda na Igreja catlica, que  preciso dizer o que Voltaire disse 
de Deus com tanta ousadia.
Se no existisse, seria preciso invent-la. Mas, se um homem fosse capaz de inventar o esprito 
de caridade, teria tambm inventado Deus. A caridade no se inventa, revela-se por suas obras, e 
 ento que se pode gritar com o Salvador do mundo: Felizes os que tm o corao puro, pois 
vero a Deus!
Entender o esprito de caridade  ter a inteligncia de todos os mistrios.
 
ARTIGO IV
Soluo do quarto problema 
A RELIGIO PROVADA PELAS OBJEES QUE LHE SO OPOSTAS 
As objees que se pode fazer contra a religio podem ser feitas seja em nome da razo, seja em 
nome da f.
A cincia no pode negar os fatos da existncia da religio, de seu estabelecimento e de sua 
influncia sobre os acontecimentos da histria.  proibido a ela tocar no dogma, o dogma 
pertence inteiramente  f.
A cincia arma-se comumente contra a religio com uma srie de fatos que tem o direito de 
apreciar, que de fato aprecia com severidade, mas que a religio condena mais energicamente 
ainda do que a cincia.
Assim fazendo, a cincia d razo  religio e censura a si prpria; carece de lgica, acusa a 
desordem que toda paixo rancorosa introduz no esprito dos homens e a necessidade incessante 
que ele tem de ser reerguido e dirigido pelo esprito de caridade.
A razo, por sua vez, examina o dogma e considera-o absurdo.
Mas, se no o fosse, a razo compreend-lo-ia; se ela o compreendesse, no seria mais a 
frmula do desconhecido.
Seria uma demonstrao matemtica do infinito.
Seria o infinito finito, o desconhecido conhecido, o incomensurvel medido, o indizvel nomeado.
Isso quer dizer que o dogma s deixaria de ser absurdo diante da razo, para se tornar, diante da 
f, da cincia, da razo e do bom senso reunidos, o mais monstruoso e o mais impossvel de 
todos os absurdos.
Restam as objees da f dissidente.
Os israelitas, nossos pais em religio, censuram-nos por termos atentado contra a unidade de 
Deus, por termos mudado uma lei imutvel e eterna, por adorarmos a criatura no lugar do criador.
Essas censuras so fundamentadas numa noo perfeitamente falsa do cristianismo.
Nosso Deus  o Deus de Moiss, Deus nico, imaterial, infinito, o s adorvel e sempre o mesmo.
Como os judeus, acreditamo-lo presente em todos os lugares, mas, como eles deveriam fazer, 
acredtamo-lo vivo, pensante e amante na humanidade e adoramo-lo em suas obras.
No mudamos sua lei, pois o declogo dos israelitas  tambm a lei dos cristos.
A lei  imutvel, porque est fundamentada em princpios eternos da natureza; mas o culto 
exigido pelas necessidades do homem pode variar e modificar-se com os homens.
O que o culto significa  imutvel, mas o culto modifica-se como as lnguas.
O culto  um ensinamento,  uma lngua,  preciso traduzi-lo quando as naes no o 
compreendem mais.
Traduzimos e no destrumos o culto de Moiss e dos profetas.
Adorando Deus na criao, no estamos adorando a prpria criao.
Adorando Deus em Jesus Cristo,  somente Deus que adoramos, mas Deus unido  humanidade.
Tornando a humanidade divina, o cristianismo revelou a divindade humana.
O Deus dos judeus era inumano, porque eles no o compreendiam em suas obras.
Somos, portanto, mais israelitas que os prprios israelitas. No que acreditam, acreditamos com 
eles e melhor que eles. Acusam-nos de estarmos separados dele e so eles, ao contrrio, que 
querem estar separados de ns.
Esperamo-los de corao e braos abertos.
Somos, como eles, discpulos de Moiss.
Como eles, viemos do Egito e detestamos sua servido. Mas ns estamos na terra prometida, e 
eles obstinam-se em permanecer e morrer no deserto.
Os muulmanos so os bastardos de Israel, ou melhor, so seus filhos deserdados, como Esa.
Sua crena  ilgica, pois admitem que Jesus  um grande profeta, e tratam os cristos como 
infiis.
Reconhecem a inspirao divina de Moiss e no vem os judeus como irmos.
Acreditam cegamente em seu cego profeta, o fatalista Maom, o inimigo do progresso e da 
liberdade.
No tiremos, no entanto, de Maom a glria de ter proclamado a unidade de Deus entre os 
rabes idlatras.
Encontram-se no Alcoro pginas puras e sublimes.
 lendo essas pginas que se pode dizer com os filhos de Ismael: No existe outro Deus seno 
Deus, e Maom  seu profeta.
H trs tronos no cu para os trs profetas das naes; mas, no fim dos tempos, Maom ser 
substitudo por Elias.
Os muulmanos nada censuram nos cristos, eles injuriam-nos.
Chamam-nos de infiis e de giaurs, isto , ces. No temos nada a lhes responder.
No se deve refutar os turcos e os rabes,  preciso instru-los e civiliz-los.
Restam os cristos dissidentes, isto , aqueles que, tendo rompido o lao de unio, declaram-se 
estrangeiros  caridade da Igreja.
A ortodoxia grega, irm gmea da Igreja romana, que no cresceu desde sua separao, que no 
tem mais importncia nos faustos religiosos, que, desde Fcio, no inspirou uma nica 
eloqncia; Igreja que se tornou inteiramente temporal e cujo sacerdcio no  mais que uma 
funo regulada pela poltica imperial do czar de todas as Rssias; mmia curiosa da Igreja 
primitiva, colorida e dourada com todas as suas lendas e com todos os seus ritos que os popes 
no compreendem mais; sombra de uma Igreja viva, mas que quis parar quando essa Igreja 
avanava e que no  mais que uma silhueta apagada e sem cabea.
Depois, os protestantes, esses eternos reguladores da anarquia, que romperam o dogma e 
tentam sempre preench-lo com raciocnios, como o tonel das Danaides; esses fantasistas 
religiosos cujas inovaes em sua totalidade so negativas, que formularam para uso prprio um 
desconhecido pretensamente mais conhecido, mistrios mais explicados, um infinito mais 
definido, uma imensido mais restrita, uma f mais duvidosa, que quintessenciaram o absurdo, 
cindiram a caridade e tomaram atos de anarquia pelos princpios de uma hierarquia para sempre 
impossvel; esses homens que querem realizar a salvao somente pela f, porque a caridade 
lhes escapa e que nada mais podem realizar, mesmo sobre a terra, pois seus pretensos 
sacramentos no so mais que farsas alegricas, no do mais a graa, no fazem mais ver a 
Deus nem tocar em Deus, no so mais, em uma palavra, os signos da onipotncia da f, mas as 
testemunhas foradas da impotncia eterna da dvida.
Foi, portanto, contra a prpria f que a reforma protestou. Os protestantes tiveram razo contra o 
zelo inconsiderado e perseguidor que queria forar as conscincias. Exigiram o direito de duvidar, 
o direito de ter menos religio ou de no a ter absolutamente; derramaram seu sangue por esse 
triste privilgio; conquistaram-no, possuem-no, mas no nos tiraro o de lastim-los e de am-los. 
Quando sentirem novamente a necessidade de acreditar, quando seu corao revoltar-se por sua 
vez contra a tirania de uma razo falseada, quando se cansarem das frias abstraes de seu 
dogma arbitrrio, das vs observncias de seu culto sem efeito, quando sua comunho sem 
presena real, suas igrejas sem divindade e sua moral sem perdo os aterrorizarem enfim, assim 
que ficarem doentes da nostalgia de Deus, no se levantaro como o filho prdigo e no viro 
jogar-se aos ps do sucessor de Pedro dizendo-lhe: Pai, pecamos contra o cu e contra vs, j 
no somos dignos de ser chamados vossos filhos, mas inclu-nos ao menos entre vossos mais 
humildes servidores.
No falaremos da crtica de Voltaire. Esse grande esprito estava dominado por um ardente amor 
pela verdade e pela justia, mas faltava-lhe esta retido do corao que d a inteligncia da f. 
Voltaire no podia admitir a f, porque no sabia amar. O esprito de caridade no se revelou a 
essa alma sem ternura, e ele criticou amargamente um fogo cujo calor no sentia e uma lmpada 
cuja luz no via. Se a religio fosse tal qual viu, teria tido mil vezes razo em atac-la e seria 
preciso ajoelhar-se diante do heroismo de sua coragem. Voltaire seria o messias do bom senso, o 
hrcules destruidor do fanatismo. Mas este homem ria demais para compreender aquele que 
disse: Felizes dos que choram, e a filosofia do riso nunca ter nada em comum com a religio das 
lgrimas.
Voltaire parodiou a Bblia, o dogma, o culto, depois ridicularizou, achincalhou, vilipendiou sua 
pardia.
Apenas aqueles que vem a religio na pardia de Voltaire podem se ofender com isso. Os 
voltairianos assemelham-se s rs da fbula que saltam sobre as vigas e, em seguida, zombam 
da majestade real. So livres para tomar a viga por um rei, so livres para refazer esta caricatura 
romana de que, outrora, Tertuliano ria, e que representava o Deus dos cristos na figura de um 
homem com cabea de asno. Os cristos daro de ombros ao ver essa brejeirice e pediro a 
Deus pelos pobres ignorantes que pretendiam insult-los.
O senhor conde Joseph de Maistre, depois de ter representado, num de seus mais eloqentes 
paradoxos, o carrasco como um ser sagrado e como uma encarnao permanente de justia 
divina na terra, queria que se erguesse para o ancio de Ferney uma esttua pela mo do 
carrasco. Existe profundidade nesse pensamento. Voltaire, com efeito, foi tambm, no mundo, um 
ser ao mesmo tempo providencial e fatal, dotado de insensibilidade para a realizao de suas 
terrveis funes. Foi, no domnio da inteligncia, um executor das grandes obras, um executor 
armado com a prpria justia de Deus.
Deus enviou Voltaire entre o sculo de Bossuet e o de Napoleo para aniquilar tudo o que separa 
esses dois gnios e reuni-los num s.
Era o Sanso do esprito, sempre pronto a sacudir as colunas do templo; mas, para faz-lo girar, 
a contragosto, a pedra do moinho do progresso religioso, a Providncia parecia ter cegado seu 
corao.
 
ARTIGO V
Soluo do ltimo problema 
SEPARAR A RELIGIO DA SUPERSTIO E DO FANATISMO 
A superstio, da palavra latina superstes, sobrevivente,  o smbolo que sobreviveu  idia,  a 
forma preferida  coisa,  o rito sem razo,  a f tornada insensata, porque se isola. E, por 
conseguinte, o cadver da religio, a morte da vida,  a inspirao substituda pelo 
embrutecimento.
O fanatismo  a superstio apaixonada, seu nome vem da palavra fanum, que significa templo,  
o templo colocado no lugar de Deus,  a honra do sacerdote substituda pelo interesse humano e 
temporal do padre,  a paixo miservel do homem explorando a f do crente.
Na fbula do asno carregado de relquias, La Fontaine diz-nos que o animal acreditou ser 
adorado, no nos diz que algumas pessoas acreditaram de fato adorar o animal. Essas pessoas 
eram os supersticiosos.
Se algum tivesse rido de suas tolices, teriam-no talvez assassinado, pois da superstio ao 
fanatismo h um s passo.
A superstio  a religio interpretada pela tolice; o fanatismo  a religio servindo de pretexto  
fria.
Os que confundem proposital e preconceituosamente a prpria religio com a superstio e o 
fanatismo emprestam  tolice suas prevenes cegas e talvez emprestassem ao fanatismo suas 
injustias e seus dios.
Inquisidores ou participantes dos Massacres de Setembro, que importam os nomes? A religio de 
Jesus Cristo condena e sempre condenou os assassinos.
 
RESUMO DA PRIMEIRA PARTE EM FORMA DE DILOGO 
A F, A CINCIA, A RAZO 
A CINCIA - Nunca me fareis acreditar na existncia de Deus.
A F - No tendes o privilgio de acreditar, mas nunca me provareis que Deus no existe.
A CINCIA - Para vo-lo provar,  preciso que, em primeiro lugar, eu saiba o que  Deus.
A F - No o sabereis nunca. Se soubsseis, podereis ensinarmo, e, quando eu o soubesse, no 
mais acreditaria nele.
A CINCIA - Acreditais, ento, sem saber em que estais acreditando?
A F - Ali! no joguemos com as palavras. Sois vs quem no sabeis em que eu acredito, 
precisamente porque vs no o sabeis. Tendes a pretenso de ser infinita? No sois interrompida 
a cada instante pelo mistrio? O mistrio  para vs uma ignorncia que reduziria ao nada o finito 
de vosso saber, se eu no o iluminasse com minhas ardentes inspiraes, e quando dizeis: Eu 
no sei mais, eu gritaria: Quanto a mim, comeo a acreditar.
A CINCIA - Mas vossas aspiraes e seu objeto so e s podem ser hipteses para mim.
A F - Sem dvida, mas so certezas para mim, uma vez que sem essas hipteses eu duvidaria 
at mesmo de vossas certezas.
A CINCIA - Mas, se comeais onde eu paro, comeais temerariamente muito cedo. Meus 
progressos atestam que eu ando sempre.
A F - Que importam os vossos progressos, se ando sempre na vossa frente?
A CINCIA - Tu, andar! sonhadora da eternidade, desdenhaste demais a terra, teus ps esto 
dormentes.
A F - Sou carregada por meus filhos!
A CINCIA - So cegos que carregam um outro, cuidado com os precipcios!
A F - No, meus filhos no so cegos, muito pelo contrrio, desfrutam de dupla viso, vem por 
teus olhos o que tu podes demonstrar para eles na terra e contemplam, pelos meus, o que lhes 
mostro no cu.
A CINCIA - O que a razo pensa disso?
A RAZO - Penso,  caras mestras, que podereis realizar um aplogo tocante, o do paraltico e o 
do cego. A cincia censura a f por no saber andar na terra, e a f diz que a cincia no v nada 
no cu das aspiraes e da eternidade. Ao invs de brigarem, cincia e f deveriam unir-se: que a 
cincia carregue a f e a f console a cincia, ensinando-lhe esperar e amar.
A CINCIA - Essa idia  bela, mas  uma utopia. A f dir-me- absurdos, e eu quero andar sem 
ela.
A F - O que  que chamais de absurdos?
A CINCIA - Chamo de absurdos as proposies contrrias s minhas demonstraes, como, por 
exemplo, que trs so um, que um Deus fez-se homem, isto , que o infinito fez-se finito. Que o 
Eterno morreu, que Deus puniu seu filho inocente pelo pecado dos homens culpados...
A F - No digas mais nada. Externadas por ti, essas proposies so, de fato, absurdos. Por 
acaso sabes o que  o nmero em Deus, tu que no conheces Deus? s capaz de raciocinar 
sobre as operaes do desconhecido? s capaz de entender os mistrios da caridade? Devo ser 
sempre absurda para ti, pois se entendesses minhas afirmaes, elas seriam absorvidas por teus 
teoremas; eu seria tu, e tu serias eu, para dizer melhor, eu no existiria mais, e a razo, em 
presena do infinito, deter-se-ia sempre cegada por tuas dvidas to infinitas quanto o espao.
A CINCIA - Pelo menos, nunca usurpes minha autoridade, no me desmintas em meus 
domnios.
A F - Nunca o fiz, e no posso nunca o fazer.
A CINCIA - Assim, nunca acreditaste, por exemplo, que uma virgem possa ser me sem deixar 
de ser virgem, e isso na ordem fsica, natural e positiva, a despeito de todas as leis da natureza; 
no afirmas que um pedao de po  no somente um Deus mas um corpo humano verdadeiro, 
com ossos e veias, rgos, sangue, de maneira que fazes de teus filhos que comem esse po um 
povinho antropfago.
A F - No  cristo quem no se revolte com o que acabaste de dizer. Isso prova o suficiente 
que eles no entendem meus ensinamentos dessa maneira positiva e grosseira. O sobrenatural 
que afirmo est acima da natureza e no poderia, por conseguinte, opor-se a ela, as palavras de 
f s so compreendidas pela f; nada que, em as repetindo, a cincia desnature. Sirvo-me de 
tuas palavras, porque no tenho outras; mas uma vez que achas meus discursos absurdos, deves 
concluir que dou a essas mesmas palavras um significado que te escapa. O Salvador, ao revelar 
o dogma da presena real, no disse: A carne aqui no tem nenhuma serventia, minhas palavras 
so esprito e vida? No te apresento o mistrio da encarnao como um fenmeno de anatomia 
nem o da transubstanciao como uma manifestao qumica. Com que direito gritarias ao 
absurdo? Eu no raciocino sobre nada do que conheceis; com que direito dirias que eu disparato?
A CINCIA - Comeo a te compreender, ou melhor, vejo que nunca te compreenderei. Nesse 
caso, continuemos separadas, nunca precisarei de ti.
A F - Sou menos orgulhosa e reconheo que me podes ser til. Talvez tambm sem mim 
estarias bem triste e bem desesperada, e no quero separar-me de ti, a menos que a razo o 
consinta.
A RAZO - No faais isso. Sou necessria a ambas. E eu, que faria sem vs? Preciso saber e 
crer para ser justa. Mas nunca devo confundir o que sei com o que acredito. Saber no  mais 
acreditar, acreditar no  saber ainda. O objeto da cincia  o conhecido, a f no se ocupa dele 
e deixa-o inteiramente  cincia. O objeto da f  o desconhecido, a cincia pode busc-lo, mas 
no defini-lo;  portanto forada, pelo menos provisoriamente, a aceitar as definies da f que 
lhe  at mesmo impossvel de criticar. Somente se a cincia renuncia  f, renuncia  esperana 
e ao amor, cuja existncia e necessidade so, no entanto, to evidentes para a cincia quanto 
para a f. A f, como fato psicolgico, pertence ao domnio da cincia, e a cincia, como 
manifestao da luz de Deus na inteligncia humana, pertence ao domnio da f. A cincia e a f 
devem, portanto, aceitar-se, respeitar-se mutuamente, at mesmo sustentar-se e socorrer-se nas 
necessidades, mas sem nunca usurpar uma  outra. O meio de as unir  nunca as confundir. Mas 
no deve haver contradio entre elas, pois servindo-se das mesmas palavras no falam a 
mesma lngua.
A F - Pois bem! irm cincia, o que dizeis disso?
A CINCIA - Digo que estvamos separadas por um deplorvel mal-entendido e que, doravante, 
podemos andar juntas. Mas a qual de seus smbolos vais-me associar? Serei judia, catlica, 
muulmana ou protestante?
A F - Continuars sendo a cincia e sers universal.
A CINCIA - Ou seja, catlica, se bem compreendo. Mas o que devo pensar das diferentes 
religies?
A F - Julga-as por suas obras. Procure a caridade verdadeira e, quando a tiver encontrado, 
pergunta-lhe a que culto pertence.
A CINCIA - No ser certamente ao dos inquisidores e dos carrascos da Noite de So 
Bartolomeu.
A F -  ao de So Joo, o Esmoler, de So Francisco de Sales, de So Vicente de Paulo, de 
Fenelon e de tantos outros.
A CINCIA - Reconheceis que, se a religio produziu algum bem, fez tambm muito mal.
A F - Quando se mata em nome do Deus que disse: No matars, quando se persegue em 
nome daquele que quer que se perdoe os inimigos, quando se propaga trevas em nome daquele 
que no quer que se oculte a luz, ser justo atribuir o crime  prpria lei que o condena? Dize, se 
quereis ser justa, que, apesar da religio, muito mal foi feito na terra. Mas, tambm, quantas 
virtudes ela fez nascer, quantos devotamentos e sacrifcios ignorados? Contaste estes nobres 
coraes de ambos os sexos que renunciaram a todas as alegrias para se pr ao servio de todas 
as dores? Essas obras devotadas ao trabalho e  orao que passaram fazendo o bem? Quem 
pois fundou asilos para os rfos e os idosos, hospcios para os doentes, retiros para o 
arrependimento? Essas instituies to gloriosas quanto modestas so obras reais de que os 
anais da Igreja esto cheios; as guerras de religio e os suplcios dos sectrios pertencem  
poltica dos sculos brbaros. Os sectrios, alis, eram eles prprios assassinos. Esquecestes a 
fogueira de Miguel Servet e o massacre de nossos padres renovado ainda em nome da 
humanidade e da razo pelos revolucionrios inimigos da inquisio e da Noite de So 
Bartolomeu? Os homens so sempre cruis, quando esquecem a religio que os abenoa e 
perdoa.
A CINCIA -  f, perdoa-me ento se no posso acreditar, mas sei agora por que s crente. 
Respeito tuas esperanas e partilho de teus desejos. Mas  pesquisando que eu encontro e  
preciso que eu duvide para pesquisar.
A RAZO - Trabalha e procura, ento,  cincia, mas respeita os orculos da f. Quando tua 
dvida deixar uma lacuna no ensinamento universal, permite  f preench-la. Andai distintas 
uma da outra, mas apoiadas uma na outra, e nunca vos separeis.
 








A CHAVE DOS GRANDES MISTRIOS 
por Eliphas Levi
Segunda Parte
Mstiros Filosficos:
Consideraes preliminares 
Diz-se que o belo  o esplendor do verdadeiro.
Ora, a beleza moral  a bondade.  belo ser bom.
Para ser bom com inteligncia,  preciso ser justo.
Para ser justo,  preciso agir com razo.
Para agir com razo,  preciso ter a cincia da realidade.
Para ter a cincia da realidade,  preciso ter conscincia da verdade.
Para ter conscincia da verdade,  preciso ter uma noo exata do ser.
O ser, a verdade, a razo e a justia so os objetos comuns das buscas da cincia e das 
aspiraes da f. A concepo de um poder supremo, real ou hipottico, transforma a justia em 
Providncia, e a noo divina, por esse ponto de vista, torna-se acessvel  prpria cincia.
A cincia estuda o ser em suas manifestaes parciais, a f o supe, ou melhor, o admite a priori 
em sua generalidade.
A cincia busca a verdade em todas as coisas, a f relaciona todas as coisas a uma verdade 
universal e absoluta.
A cincia verifica realidades no detalhe, a f explica-as por uma realidade de conjunto que a 
cincia no pode verificar, mas que a prpria existncia dos detalhes parece for-la a reconhecer 
e a admitir.
A cincia submete as razes das pessoas e das coisas  razo matemtica e universal; a f 
procura, ou melhor, supe nas prprias matemticas e acima das matemticas uma razo 
inteligente e absoluta.
A cincia demonstra a justia pela justia; a f d justeza absoluta  justia, subordinando-a  
Providncia.
V-se aqui tudo o que a f empresta  cincia e tudo o que a cincia, por sua vez, deve  f.
Sem a f, a cincia est circunscrita por uma dvida absoluta e encontra-se eternamente 
estacionada no empirismo arriscado a um ceticismo raciocinador; sem a cincia, a f constri suas 
hipteses ao acaso e s pode prejulgar cegamente as causas dos efeitos que ignora.
A grande corrente que rene cincia e f  a analogia.
A cincia est forada a respeitar uma crena cujas hipteses so anlogas s verdades 
demonstradas. A f, que atribui tudo a Deus, est forada a admitir a cincia como uma revelao 
natural que, pela manifestao parcial das leis da razo eterna, d uma escala de propores a 
todas as aspiraes e a todos os mpetos da alma no domnio do desconhecido.
 somente a f, portanto, que pode dar uma soluo aos mistrios da cincia e , em 
contrapartida, somente a cincia que demonstra a razo de ser dos mistrios da f.
Fora da unio e do concurso dessas duas foras vivas da inteligncia, no h para a cincia seno 
ceticismo e desespero, para a f, temeridade e fanatismo.
Se a f insulta a cincia, blasfema; se a cincia desconhece a f, abdica.
Agora, escutemo-las falar de comum acordo.
- O Ser est em todos os lugares, diz a cincia.  mltiplo e varivel em suas formas, nico em sua 
essncia e imutvel em suas leis. O relativo demonstra a existncia do absoluto. A inteligncia 
existe no ser. A inteligncia anima e modifica a matria.
- A inteligncia est em todos os lugares, diz a f. Em nenhum lugar a vida  fatal, uma vez que 
est regulada. A regra  a expresso de uma sabedoria suprema. O absoluto em inteligncia, o 
regulador supremo das formas, o ideal vivo dos espritos  Deus.
- Em sua identidade com a idia, o ser  a verdade, diz a cincia. 
- Em sua identidade com o ideal, a verdade  Deus, retorque a f. 
- Em sua identidade com minhas demonstraes, o ser  a realidade, diz a cincia.
- Em sua identidade com minhas legtimas aspiraes, a realidade  meu dogma, diz a f.
- Na sua identidade com o verbo, o ser  a razo, diz a cincia.
- Na sua identidade com o esprito de caridade, a mais elevada razo  minha obedincia, diz a f
- Em sua identidade com o motivo dos atos racionais, o ser  a justia, diz a cincia.
- Em sua identidade com o princpio de caridade, a justia  a Providncia, responde a f.
Acordo sublime de todas as certezas com todas as esperanas, do absoluto em inteligncia e do 
absoluto em amor. O Esprito Santo, o esprito de caridade deve assim tudo conciliar e tudo 
transformar em sua prpria luz. No  ele o esprito de inteligncia, o esprito de cincia, o esprito 
de conselho, o esprito de fora? Ele deve vir, diz a liturgia catlica, e isso ser como uma criao 
nova, e ele mudar a face da terra.
"Rir da filosofia j  filosofar", disse Pascal ao fazer aluso a esta filosofia ctica e duvidosa que 
no reconhece a f. E, se existisse uma f que pisoteasse a cincia, no diramos que rir de 
semelhante f seria dar provas de verdadeira religio, que  toda caridade, que no tolera o riso, 
mas ter-se-ia razo em censurar esse amor pela ignorncia e em dizer a essa f temerria: J que 
desconheces tua irm, no s a filha de Deus!
Verdade, realidade, razo, justia, providncia, tais so os cinco raios da estrela flamejante no 
centro da qual a cincia escrever a palavra Ser, a que a f acrescentar o nome inefvel de Deus.
 
Soluo dos problemas filosficos 
PRIMEIRA SRIE 
Pergunta - O que  a verdade?
Resposta -  a idia idntica ao ser.
P - O que  a realidade?
R -  a cincia idntica ao ser.
P - O que  a razo?
R -  o verbo idntico ao ser.
P - O que  a justia?
R -  o motivo dos atos idnticos ao ser.
P - O que  o absoluto?
R -  o ser.
P - Concebe-se algo acima do ser?
R - No, mas concebe-se no prprio ser algo de supereminente e de transcendental.
P - O que ?
R - A razo suprema do ser.
P - Conheceis e podeis defini-la?
R - Somente a f afirma-a e nomeia-a Deus.
P - Existe algo acima da verdade?
R - Acima da verdade conhecida existe a verdade desconhecida.
P - Como se pode racionalmente supor essa verdade?
R - Pela analogia e pela proporo.
P - Como se pode defini-la?
R - Pelos smbolos da f.
P - Pode-se dizer da realidade a mesma coisa que da verdade?
R - Exatamente a mesma coisa.
P - Existe algo acima da razo?
R - Acima da razo finita existe a razo infinita.
P - O que  a razo infinita?
R -  esta razo suprema do ser a que a f chama de Deus.
P - Existe algo acima da justia?
R - Sim, de acordo com a f, existe a providncia em Deus e, no homem, o sacrifcio.
P - O que  o sacrifcio?
R -  o abandono benvolo e espontneo do direito.
P - O sacrifcio  racional? 
R - No,  uma espcie de loucura maior que a razo, pois a razo  forada a admir-lo. 
P - Como chamar um homem que age de acordo com a verdade, a realidade, a razo e a justia?
R -  um homem moral.
P - E se pela justia ele sacrifica seus atrativos?
R -  um homem de honra.
P - E se, para imitar a grandeza e a bondade da Providncia, ele faz mais do que seu dever e 
sacrifica seu direito pelo bem dos outros?
R -  um heri.
P - Qual  o princpio verdadeiro do heroismo?
R -  a f.
P - Qual  o seu sustento?
R - A esperana.
P - E sua regra?
R - A caridade.
P - O que  o bem?
R -  a ordem.
P - O que  o mal?
R -  a desordem.
P - Que prazer  permitido?
R - O gozo da ordem.
P - Que prazer  proibido?
R - O gozo da desordem.
P - Quais so as conseqncias de um e de outro?
R - A vida e a morte na ordem moral.
P - O inferno, com todos os seus horrores, tem, pois, razo de ser no dogma religioso?
R - Sim,  a conseqncia rigorosa de um princpio.
P - E que princpio  esse?
R - A liberdade.
P - O que  a liberdade?
R -  o direito de fazer o dever com a possibilidade de no o fazer.
P - O que  faltar com o dever?
R -  perder o direito. Ora, sendo o direito eterno, perd-lo significa perda eterna.
P - No se pode reparar uma falta?
R - Sim, pela expiao.
P - O que  a expiao?
R -  uma sobrecarga de trabalho. Assim, porque fui preguioso ontem, devo realizar, hoje, uma 
dupla tarefa.
P - Que pensar dos que se impem sofrimentos voluntrios?
R - Se  para remediar a atrao brutal do prazer, so sbios; se  para sofrer no lugar dos outros, 
so generosos; mas, se o fazem sem conselho e sem medida, so imprudentes.
P - Assim, diante da verdadeira filosofia, a religio  sbia em tudo o que ordena?
R - Vs o vedes.
P - Mas se enfim estivermos errados em nossas esperanas eternas?
R - A f no admite essa dvida. Mas a prpria filosofia deve responder que todos os prazeres da 
terra no valem um dia de sabedoria, e que todos os triunfos da ambio no valem um s instante 
de heroismo e de caridade.
 
SEGUNDA SRIE
P - O que  o homem?
R - O homem  um ser inteligente e corporal feito  imagem de Deus e do mundo, uno em 
essncia, triplo em substncia, imortal e mortal.
P - Dizeis triplo em substncia. Teria o homem duas almas ou dois corpos?
R - No. Tem em si uma alma espiritual, um corpo material e um mediador plstico.
P - Qual  a substncia desse mediador?
R -  a luz em parte voltil e em parte fixada.
P - O que  a parte voltil dessa luz?
R -  o fluido magntico.
P - E a parte fixada?
R -  o corpo fludico ou arornal.
P - A existncia desse corpo  demonstrada?
R - Sim, pelas experincias mais curiosas e mais conclusivas. Falaremos disso na terceira parte 
deste livro.
P - Essas experincias so artigos de f?
R - No, pertencem  cincia.
P - Mas a cincia preocupar-se-ia com isso?
R - Ela j se preocupa, uma vez que escrevemos este livro e uma vez que o ledes.
P - Dai-nos algumas noes sobre esse mediador plstico.
R - Ele  formado por uma luz astral ou terrestre e transmite ao corpo humano a dupla imantao. 
Ao agir sobre essa luz, a alma, por suas volies, pode dissolv-la ou coagul-la, projet-la ou 
atra-la. Ela  o espelho da imaginao e dos sonhos. Reage sobre o sistema nervoso e produz, 
assim, os movimentos do corpo. Essa luz pode dilatar-se indefinidamente e comunicar suas 
imagens a distncias considerveis, ela imanta os corpos submetidos  ao do homem e pode, 
fechando-se, atra-los para si. Pode assumir todas as formas evocadas pelo pensamento e, nas 
coagulaes passageiras de sua parte resplandecente, aparecer aos olhos e at mesmo oferecer 
uma espcie de resistncia ao contato. Se essas manifestaes e esses usos do mediador plstico 
so anormais, o instrumento luminoso no pode produzi-las sem ser falseado e causam 
necessariamente ou alucinao ou loucura.
P - O que  o magnetismo animal?
R -  a ao de um mediador plstico sobre um outro para dissolver ou coagular. Aumentando a 
elasticidade da luz vital e sua fora de projeo, ela  enviada to longe quanto se deseje e  
retirada totalmente carregada de imagens, mas  preciso que essa operao seja favorecida pelo 
sono do sujeito, que se produz com maior coagulao da parte fixa de seu mediador.
P - O magnetismo  contrrio  moral e  religio?
R - Sim, quando dele se abusa.
P - O que  abusar dele?
R -  servir-se dele de maneira desordenada ou para um fim desordenado.
P - O que  um magnetismo desordenado?
R -  uma emisso fludica mals e feita com ms intenes, por exemplo, para saber os segredos 
dos outros ou para chegar a fins injustos.
P - Qual , ento, seu resultado?
R - Falseia no magnetizador e no magnetizado o instrumento fludico de preciso. E  a essa 
causa que se devem atribuir as imoralidades e as loucuras reprovadas num grande nmero de 
pessoas que lidam com o magnetismo.
P - Quais as condies necessrias para se magnetizar convenientemente?
R - A sade do esprito e do corpo; a inteno reta e a prtica discreta.
P - Que vantagens pode-se obter pelo magnetismo bem dirigido?
R - A cura das doenas nervosas, a anlise dos pressentimentos, o restabelecimento das 
harmonias fludicas, a descoberta de alguns segredos da natureza.
P - Explicai-nos tudo isso de uma maneira mais completa.
R - Ns o faremos na terceira parte desta obra que tratar especialmente dos mistrios da 
natureza


Terceira Parte
Os mistrios da Natureza:
O grande agente mgico
 
Falamos de uma substncia propagada no infinito

A dcima chave do Tar
A substncia una que  cu e terra, isto , conforme seus graus de polarizao, sutil ou fixa.
Essa substncia  o que Hermes Trismegisto chama de grande Telesma. Quando produz o 
esplendor, ela denomina-se luz.
 essa substncia que Deus cria antes de todas as coisas, quando diz: Que seja a luz.
Ela  ao mesmo tempo substncia e movimento.  um fluido e uma vibrao perptua.
A fora que a pe em movimento e que lhe  inerente denomina-se magnetismo.
No infinito, essa substncia nica  o ter ou a luz etrea.
Nos astros que magnetiza, torna-se luz astral.
Nos seres organizados, luz ou fluido magntico.
No homem, forma o corpo astral ou o mediador plstico.
A vontade dos seres inteligentes age diretamente sobre essa luz e, por meio dela, sobre toda a 
natureza submetida s modificaes da inteligncia.
Essa luz  o espelho comum de todos os pensamentos e de todas as formas; guarda as imagens 
de tudo o que foi, os reflexos dos mundos passados e, por analogia, os esboos dos mundos 
futuros. E o instrumento da taumaturgia e da adivinhao, como nos resta explicar na terceira e 
ltima parte desta obra.



1 Livro
. 

A CHAVE DOS GRANDES MISTRIOS 
por Eliphas Levi 

A Chave dos Grandes Mistrios 
De acordo com Henoch, Abrao, 
Hermes Trismegisto e Salomo 
Eliphas Levi 

Chave absoluta das cincias ocultas dada por 
Guilherme de Postel e completado por Eliphas Levi. 
A religio diz: Acreditai e compreendereis. A cincia vem vos dizer: Compreendei e acreditareis. 
"Ento, toda a cincia mudar de fisionomia; o esprito, por muito tempo destronado e esquecido, 
retomar seu lugar; ser demonstrado que as tradies antigas so inteiramente verdadeiras; que 
o paganismo no passa de um sistema de verdades corrompidas e deslocadas; que basta limp-
las, por assim dizer, e recoloc-las em seu lugar, para v-las brilhar com todo o esplendor. Em uma 
palavra, todas as idias mudaro; e, uma vez que, de todos os lados, uma multido de eleitos 
clama em concerto: "Vinde, Senhor, vinde!", por que reprovareis os homens que se lanam nesse 
futuro majestoso e se glorificam de adivinh-lo?"
Joseph de Maistre,
Soires de Saint-Ptersbourg 
PREFCIO 
Os espritos humanos tm a vertigem do mistrio. O mistrio  o abismo que atrai, sem cessar, 
nossa curiosidade inquieta por suas formidveis profundezas.
O maior mistrio do infinito  a existncia de Aquele para quem e somente para Ele - tudo  sem 
mistrio.
Compreendendo o infinito, que  essencialmente incompreensvel, ele prprio  o mistrio infinito e 
externamente insondvel, ou seja, ele , ao que tudo indica, esse absurdo por excelncia, em que 
acreditava Tertuliano.
Necessariamente absurdo, uma vez que a razo deve renunciar para sempre a atingi-lo; 
necessariamente crvel, uma vez que a cincia e a razo, longe de demonstrar que ele no , so 
fatalmente levadas a deixar acreditar que ele , e elas prprias a ador-lo de olhos fechados.
 que esse absurdo  a fonte infinita da razo, a luz brota eternamente das trevas eternas, a 
cincia, essa Babel do esprito, pode torcer e sobrepor suas espirais subindo sempre; ela poder 
fazer oscilar a Terra, nunca tocar o cu.
Deus  o que aprenderemos eternamente a conhecer. , por conseguinte, o que nunca saberemos.
O domnio do mistrio  um campo aberto s conquistas da inteligncia. Pode-se andar nele com 
audcia, nunca se reduzir sua extenso, mudar-se- somente de horizontes. Todo saber  o 
sonho do impossvel, mas ai de quem no ousa aprender tudo e no sabe que, para saber alguma 
coisa,  preciso resignar-se-a estudar sempre!
Dizem que para bem aprender  preciso esquecer vrias vezes. O mundo seguiu esse mtodo. 
Tudo o que se questiona em nossos dias havia sido resolvido pelos antigos; anteriores a nossos 
anais, suas solues escritas em hierglifos no tinham mais sentido para ns; um homem 
reencontrou sua chave, abriu as necrpoles da cincia antiga e deu a seu sculo todo um mundo 
de teoremas esquecidos, de snteses simples e sublimes como a natureza, irradiando sempre 
unidade e multiplicando-se como nmeros, com propores to exatas quanto o conhecimento 
demonstra e revela o desconhecido. Compreender essa cincia  ver Deus. O autor deste livro, ao 
terminar sua obra, acreditar t-lo demonstrado.
Depois, quando tiverdes visto Deus, o hierofante vos dir: Virai-vos e, na sombra que projetais na 
presena desse sol das inteligncias, ele far aparecer o Diabo, o fantasma negro que vedes 
quando no olhais para Deus e quando acreditais ter preenchido o cu com vossa sombra, porque 
os vapores da terra parecem t-la feito crescer ao subir.
Pr de acordo, na ordem religiosa, a cincia com a revelao e a razo com a f, demonstrar em 
filosofia os princpios absolutos que conciliam todas as antinomias, revelar enfim o equilbrio 
universal das foras naturais, tal  a tripla finalidade desta obra, que ser, por conseguinte, dividida 
em trs partes.
Mostraremos a verdadeira religio com caracteres tais que ningum, crente ou no, poder 
desconhec-la, ser o absoluto em matria de religio. Estabeleceremos, em filosofia, os 
caracteres imutveis dessa verdade, que , em cincia, realidade, em julgamento, razo e, em 
moral, justia. Enfim, faremos conhecer estas leis da natureza cujo equilbrio  o sustento e 
mostraremos o quanto so vs as fantasias de nossa imaginao diante das realidades fecundas 
do movimento e da vida. Convidaremos tambm os grandes poetas do futuro para refazerem a 
divina comdia, no mais de acordo com os sonhos do homem, mas segundo as matemticas de 
Deus.
Mistrio dos outros mundos, foras ocultas, revelaes estranhas, doenas misteriosas, faculdades 
excepcionais, espritos, aparies, paradoxos mgicos, arcanos hermticos, diremos tudo e 
explicaremos tudo. Quem pois nos deu esse poder? No tememos revel-lo a nossos leitores.
Existe um alfabeto oculto e sagrado que os hebreus atribuem a Henoch, os egpcios a Tot ou a 
Mercrio Trismegisto, os gregos a Cadmo e a Palamdio. Esse alfabeto, conhecido pelos 
pitagricos, compe-se de idias absolutas ligadas a signos e a nmeros e realiza, por suas 
combinaes, as matemticas do pensamento. Salomo havia representado esse alfabeto por 
setenta e dois nomes escritos em trinta e seis talisms e  o que os iniciados do Oriente 
denominam ainda de as pequenas chaves ou clavculas de Salomo. Essas chaves so descritas e 
seu uso  explicado num livro cujo dogma tradicional remonta ao patriarca Abrao,  o Sepher 
Ytsirah, e, com a inteligncia do Sepher Ytsirah, penetra-se o sentido oculto do Zohar, o grande 
livro dogmtico da Cabala dos hebreus. As clavculas de Salomo, esquecidas com o tempo e que 
se dizia estarem perdidas, ns as encontramos, e abrimos sem dificuldade todas as portas dos 
antigos santurios, onde a verdade absoluta parecia dormir, sempre jovem e sempre bela, como 
aquela princesa de um conto infantil que espera durante um sculo de sono o esposo que deve 
despert-la.
Depois de nosso livro, ainda haver mistrios, mas mais alto e mais longe nas profundezas 
infinitas. Esta publicao  uma luz ou uma loucura, uma mistificao ou um monumento. Lede, 
refleti e julgai.




LIVRO II 
OS MISTRIOS MGICOS 
CAPTULO I
Teoria da vontade 
A vida humana e suas dificuldades incontveis tm por finalidade, na ordem da sabedoria eterna, a 
educao da vontade do homem.
A dignidade do homem consiste em fazer o que quer e em querer o bem, em conformidade com a 
cincia do verdadeiro.
O bem conforme ao verdadeiro  o justo.
A justia  a prtica da razo.
A razo  o verbo da realidade.
A realidade  a cincia da verdade.
A verdade  a histria idntica ao ser.
O homem chega  idia absoluta do ser por duas vias, a experincia e a hiptese.
A hiptese  provvel quando  solicitada pelos ensinamentos da experincia;  improvvel ou 
absurda quando  rejeitada por esse ensinamento.
A experincia  a cincia, e a hiptese  a f.
A verdadeira cincia admite necessariamente a f; a verdadeira f conta necessariamente com a 
cincia.
Pascal blasfemava contra a cincia quando disse que, pela razo, o homem no pode chegar ao 
conhecimento de nenhuma verdade.
Assim, Pascal morreu louco.
Mas Voltaire no blasfemava menos contra a cincia, quando declarava absurda toda hiptese da 
f e admitia por regra da razo apenas o testemunho dos sentidos.
Assim, as ltimas palavras de Voltaire foram esta frmula contraditria:
DEUS E A LIBERDADE 
Deus, isto , um mestre supremo: o que exclui toda idia de liberdade, como a entendia a escola 
de Voltaire.
E a liberdade, isto , uma independncia absoluta de todo mestre; o que exclui toda idia de Deus. 
A palavra DEUS exprime a personificao suprema da lei e, por conseguinte, do dever; e, se pela 
palavra LIBERDADE se quiser entender conosco O DIREITO DE FAZER O DEVER, tomaremos, 
de nossa parte, por divisa e repetiremos sem contradio e sem erro:
DEUS E A LIBERDADE 
Como s h liberdade para o homem na ordem que resulta do verdadeiro e do bem, pode-se dizer 
que a conquista da liberdade  o grande trabalho da alma humana. O homem, libertando-se das 
ms paixes e de sua servido, de certo modo cria-se a si prprio uma segunda vez. A natureza 
fizera-o vivo e sofredor, ele se faz feliz e imortal; torna-se, assim, o representante da divindade na 
terra e exerce relativamente sua onipotncia.
AXIOMA I 
Nada resiste  vontade do homem quando ele sabe o verdadeiro e quer o bem.
AXIOMA II 
Querer o mal  querer a morte. Uma vontade perversa  um comeo de suicdio.
AXIOMA III 
Querer o bem com violncia  querer o mal; pois a violncia produz a desordem, e a desordem 
produz o mal.
AXIOMA IV 
Pode-se e deve-se aceitar o mal como meio para o bem; mas  preciso nunca quer-lo ou faz-lo, 
do contrrio destruir-se-ia com uma mo o que se edificasse com a outra. A boa f nunca justifica 
os maus meios; corrige-os quando so suportados e condena-os quando deles se lana mo.
AXIOMA V 
Para se ter direito de possuir, sempre  preciso querer pacientemente e por muito tempo.
AXIOMA VI 
Passar a vida querendo o que  impossvel possuir, sempre  abdicar da vida e aceitar a 
eternidade da morte.
AXIOMA VII 
Quanto mais a vontade supera obstculos, mais se fortalece.  por isso que Cristo glorificou a 
pobreza e a dor.
AXIOMA VIII 
Quando a vontade  consagrada ao absurdo,  reprovada pela eterna razo.
AXIOMA IX 
A vontade do homem justo  a vontade do prprio Deus, e  a lei da natureza.
AXIOMA X 
 pela vontade que a inteligncia v. Se a, vontade  s, a viso  justa. Deus disse: Que seja a 
luz! e a luz ; a vontade disse: Que o mundo seja como eu o quero ver! e a inteligncia o v como 
a vontade quis.  o que significa a expresso assim seja, que confirma os atos de f.
AXIOMA XI 
Quando algum cria fantasmas, pe no mundo vampiros, e ser preciso alimentar esses filhos de 
um pesadelo voluntrio com seu sangue, sua vida, sua inteligncia e sua razo, sem nunca saci-
los.
AXIOMA XII 
Afirmar e querer o que deve ser  criar; afirmar e querer o que no deve ser  destruir.
AXIOMA XIII 
A luz  um fogo eltrico colocado pela natureza a servio da vontade: ilumina os que dela sabem 
servir-se, queima os que dela abusam.
AXIOMA XIV 
O imprio do mundo  o imprio da luz.
AXIOMA XV 
As grandes inteligncias cuja vontade equilibra-se mal assemelham-se aos cometas, que so sis 
abortados.
AXIOMA XVI 
Nada fazer  to funesto quanto fazer o mal, mas  mais covarde. O mais imperdovel dos 
pecados mortais  a inrcia.
AXIOMA XVII 
Sofrer  trabalhar. Uma grande dor sofrida  um progresso realizado. Os que sofrem muito vivem 
mais do que os que no sofrem.
AXIOMA XVIII 
A morte voluntria por abnegao no  um suicdio;  a apoteose da vontade.
AXIOMA XIX 
O medo  apenas uma preguia da vontade, e  por isso que a opinio desencoraja os covardes.
AXIOMA XX 
Consegui no temer o leo, e o leo vos temer. Dizei  dor: Quero que tu sejas um prazer, e ela 
se tornar at mais do que um prazer, uma felicidade.
AXIOMA XXI 
Uma corrente de ferro  mais fcil de quebrar que uma corrente de flores.
AXIOMA XXII 
Antes de declarar um homem feliz ou infeliz, sabei como o fez a direo de sua vontade: Tibrio 
morria todos os dias em Capri, enquanto Jesus provava sua imortalidade e sua divindade no 
Calvrio e na cruz.
 
CAPTULO II
O poder da palavra 
 o verbo que cria as formas, e as formas, por sua vez, reagem sobre o verbo para modific-lo e 
termin-lo.
Toda palavra de verdade  o comeo de um ato de justia.
Pergunta-se se o homem algumas vezes pode ser necessariamente impelido para o mal. Sim, 
quando ele tem o julgamento falso e, por conseguinte, o verbo injusto.
Mas algum  to responsvel por um julgamento falso como por uma m ao.
O que falseia o julgamento so as vaidades injustas do egosmo.
O verbo injusto, no podendo realizar-se pela criao, realiza-se pela destruio.  preciso que 
mate ou morra.
Se pudesse permanecer sem ao seria a maior de todas as desordens, uma blasfmia duradoura 
contra a verdade.
Tal  a palavra ociosa da qual Cristo disse que se prestar conta no juizo final. Um gracejo, uma 
tolice que recreia e que faz rir no  uma palavra ociosa.
A beleza da palavra  um esplendor de verdade. Uma palavra verdadeira  sempre bela, uma bela 
palavra  sempre verdadeira.
 por isso que as obras de arte so sempre santas quando so belas.
Que me importa que Anacreonte cante Batylle, se, em seus versos, ouo as notas da divina 
harmonia que  o hino eterno da beleza? A poesia  pura como o sol: ela estende seu vu de luz 
sobre os erros da humanidade. Ai daquele que quisesse erguer o vu para perceber fealdades.
O Conclio de Trento disse que  permitido s pessoas sbias e prudentes lerem os livros dos 
antigos, mesmo obscenos, por causa da beleza da forma.
Uma esttua de Nero ou de Heliogbalo feita como as obras-primas de Fdias no seria uma obra 
absolutamente bela e absolutamente boa? E os que gostariam de v-la destruda por representar 
um monstro no mereceriam as vaias do mundo inteiro?
As esttuas escandalosas so as esttuas malfeitas; e a Vnus de Milo seria profanada se fosse 
exposta ao lado das Virgens que ousam expor em algumas igrejas.
Aprende-se o mal nos livros de moral tolamente escritos, bem mais do que nas poesias de Catulo 
ou nas engenhosas alegorias de Apuleio.
No h maus livros seno os livros malpensados ou malfeitos.
Todo verbo de beleza  um verbo de verdade.  uma luz formulada em palavra.
Porm,  preciso uma sombra para que a mais brilhante luz produza-se e torne-se visvel; e a 
palavra criadora, para tornar-se eficaz, necessita de contraditores.  preciso que suporte a prova 
da negao, do sarcasmo, depois aquela ainda bem mais cruel da indiferena e do esquecimento. 
" preciso", dizia o Mestre, "que o gro apodrea para germinar."
O verbo que afirma e a palavra que nega devem casar-se, e de sua unio nascer a verdade 
prtica, a palavra real e progressiva.  a necessidade que deve constranger os trabalhadores a 
escolherem por pedra angular a que inicialmente fora desconhecida e rejeitada. Que a contradio 
nunca desencoraje, pois, os homens de iniciativa. O arado necessita de uma terra e a terra resiste 
porque trabalha. Ela defende-se como todas as virgens, concebe e d  luz lentamente como 
todas as mes. Vs, pois, que quereis semear uma planta nova no campo da inteligncia, 
compreendei e respeitai as resistncias pudibundas da experincia limitada e da razo tardia.
Quando uma palavra nova vem ao mundo, necessita de laos e cueiros; foi o gnio que a 
concebeu, mas  a experincia que deve aliment-la. No receeis que seja desamparada e morra; 
o esquecimento para ela  um repouso favorvel e as contradies so uma cultura. Quando um 
sol desponta no espao, cria ou atrai mundos. Uma nica fagulha de luz fixa promete ao espao 
um universo.
Toda a magia est numa palavra, e essa palavra, pronunciada cabalisticamente,  mais forte que 
todos os poderes do cu, da terra e do inferno. Com o nome de Jod he van he domina-se: os 
reinos so conquistados em nome de Adonai, e as foras ocultas que compem o imprio de 
Hermes so totalmente obedientes quele que sabe pronunciar segundo a cincia o nome 
incomunicvel de Agla.
Para pronunciar segundo a cincia as grandes palavras da Cabala,  preciso pronunci-las com 
uma inteligncia inteira, com uma vontade que nada detenha, com uma atividade que nada rejeite. 
Em magia ter dito  ter feito; o verbo comea com letras, termina com atos. S se quer realmente 
algo quando se quer com todo o corao, a ponto de por isso ferir as mais caras afeies; com 
todas as foras a ponto de expor a sade, a fortuna e a vida.
 pela devoo absoluta que a f se prova e se constitui. Mas o homem armado de semelhante f 
poder remover montanhas.
O inimigo mais fatal de nossas almas  a preguia. A inrcia possui uma embriaguez que nos 
adormece; mas o sono da inrcia  a corrupo e a morte. As faculdades da alma humana so 
como as ondas do oceano: necessitam, para conservarem-se, do sal e do amargor das lgrimas; 
necessitam das tormentas do cu e da agitao das tempestades.
Quando, ao invs de caminharmos na rota do progresso, queremos ser carregados, estamos 
dormindo nos braos da morte;  para ns que  dito, como ao paraltico do Evangelho: Carregai 
vossa cama e andai! Somos ns que devemos carregar a morte para precipit-la na vida.
Segundo a magnfica e terrvel expresso de So Joo, o inferno  um fogo que dorme.  uma 
vida sem atividade e sem progresso;  enxofre em estagnao: stagnum ignis et sulphuris.
A vida que dorme  anloga  palavra ociosa e  disso que os homens tero de prestar contas no 
dia do juzo final.
A inteligncia fala e a matria agita-se; s descansar depois de ter tomado a forma dada pela 
palavra. Vede o verbo cristo h dezenove sculos trabalhando o mundo. Que combates de 
gigantes! Quantos erros experimentados e rechaados! Quanto cristianismo desiludido e irritado no 
fundo do protesto, desde o sculo XVI at o sculo XVIII! O egosmo humano, desesperado com 
suas derrotas, amotinou sucessivamente todas as suas estupidezes. Revestiram o Salvador do 
mundo com todos os andrajos e todas as prpuras derrisrias: depois de Jesus o Inquisidor, fez-se 
o Jesus Revolucionrio. Se fordes capaz, medi quantas lgrimas e quanto sangue correram, ousai 
prever quanto ainda correr antes que se chegue ao reino messinico do Homem-Deus, que 
subjuga ao mesmo tempo todas as paixes aos poderes e todos os poderes  justia!
ADVENIAT REGNUM TUUM! Eis o que setecentos milhes de vozes repetem noite e dia em toda 
a superfcie da terra, h quase mil e novecentos anos, enquanto os israelitas continuam a esperar 
o Messias. Ele falou, e ele voltar; veio para morrer, e prometeu retornar para viver.
CU  A HARMONIA DOS SENTIMENTOS GENEROSOS. 
INFERNO  O CONFLITO DOS INSTINTOS COVARDES. 
Quando a humanidade, a poder de experincias sangrentas e dolorosas, tiver compreendido bem 
essa dupla verdade, abjurar do inferno do egosmo para entrar no cu da abnegao e da 
caridade crist.
A lira de Orfeu desbravou a Grcia selvagem, e a lira de Anfio construiu a misteriosa Tebas.  
que a harmonia  a verdade. A natureza inteira  harmonia, mas o Evangelho no  uma lira:  o 
livro dos princpios eternos que devem regular e que regularo todas as liras e todas as harmonias 
vivas do universo.
Enquanto o mundo no compreender estas trs palavras: verdade, razo, justia, e estas: dever, 
hierarquia, sociedade, a divisa revolucionria, liberdade, igualdade, fraternidade, ser apenas uma 
trplice mentira.
 
CAPTULO III
As influncias misteriosas 
No h meio-termo possvel. Todo homem  bom ou mau. Os indiferentes, os mornos no so 
bons, so, pois, maus, e os piores de todos os maus, pois so imbecis e covardes. O combate da 
vida assemelha-se a uma guerra civil, os que permanecem neutros traem igualmente os dois lados 
e renunciam ao direito de serem contados dentre os filhos da ptria.
Todos ns respiramos a vida dos outros e de algum modo insuflamo-lhes uma parte de nossa 
existncia. Os homens inteligentes e bons so, sem saberem, os mdicos da humanidade, os 
homens tolos e maus so envenenadores pblicos.
Existem pessoas perto de quem sentimo-nos melhores. Vede esta jovem senhora da alta 
sociedade, ela conversa, ri, adorna-se como todas as outras, por que, ento, tudo nela  melhor e 
mais perfeito? Nada mais natural que sua distino, nada mais franco e mais nobremente 
despretensioso que sua conversa. Perto dela tudo deve achar-se  vontade, exceto os maus 
sentimentos, mas eles so impossveis perto dela. Ela no encontra os coraes, prende-os e os 
instrui, no embriaga, encanta. O que toda sua pessoa prega parece ser uma perfeio mais 
aprazvel do que a prpria virtude;  mais graciosa que a graa, suas aes so fceis e 
inimitveis como a bela msica e os belos versos. Era dela que uma encantadora mundana, muito 
amiga para ser rival, dizia depois de um baile: Pareceu-me ver a Sagrada Bblia em movimento. 
Vede ao contrrio esta outra mulher, afeta a mais rgida devoo e se escandalizaria ao ouvir os 
anjos cantarem, mas sua fala  malvola, seu olhar  altivo e desdenhoso; quando fala sobre 
virtude poderia provocar o amor ao vcio. Para ela Deus  um marido ciumento que ela tem o 
grande mrito de no enganar; suas mximas so desoladoras, as aes mais vs que caridosas e 
poder-se-ia dizer aps a ter encontrado na igreja: Vi o diabo orando a Deus.
Ao deixar a primeira, senti-vos cheio de amor por tudo o que  belo, por tudo o que  bom e 
generoso. Estais feliz por lhe terdes dito tudo o que ela vos inspirou de bem e por terdes sido por 
ela aprovado; dizei-vos que a vida  boa, uma vez que foi dada por Deus a semelhantes almas, 
estais cheio de coragem e de esperana. A outra vos deixa enfraquecido, rejeitado, ou talvez, o 
que  pior, estimulado a fazer o mal; vos faz duvidar da honra, da piedade e do dever; perto dela 
s escapais ao tdio pela porta dos maus desejos. Falastes mal de algum para agrad-la, 
diminuste-vos para adular seu orgulho, ficais descontente com ela e convosco mesmo.
O sentimento vivo e certo dessas diversas influncias  prprio dos espritos justos e das 
conscincias delicadas, e  precisamente o que os antigos escritores ascticos chamavam graa 
do discernimento dos espritos.
Sois cruis consoladores, dizia J a seus pretensos amigos. De fato, os seres viciosos sempre 
afligem ao invs de consolarem. Tm um tato prodigioso para encontrar e escolher as mais 
desesperadoras banalidades. Chorais um afeto perdido, como sois ingnuo! Zombavam de vs, 
no vos amavam. Com dor confessais que vosso filho  coxo, amigavelmente vos fazem ver que 
ele  corcunda. Ele tosse e inquietai-vos, suplicam-vos ternamente que tomeis cuidado, pois talvez 
esteja tuberculoso. Vossa mulher est doente h muito tempo, consolai-vos, pois ela morrer. 
Espera e trabalha, eis o que o cu nos diz pela voz de todas as boas almas; desespera e morre, 
eis o que o inferno nos grita em todas as palavras, todos os movimentos, todas as amizades e 
todos os afagos dos seres imperfeitos ou degradados.
Qualquer que seja a reputao de uma pessoa e quaisquer que sejam os testemunhos de amizade 
que ela vos d, se, ao deix-la, sentivos menos amigo do bem e menos forte, ela  perniciosa para 
vs: evitai-a.
Nossa dupla imantao produz em ns duas espcies de simpatias. Temos necessidade de, 
alternadamente, absorver e irradiar. Nosso corao gosta dos contrastes, e existem poucos 
exemplos de mulheres que tenham amado sucessivamente dois gnios.
Repousamo-nos pela proteo dos cansaos da admirao,  a lei do equilbrio; mas por vezes 
tambm as naturezas sublimes surpreendem-se em caprichos de vulgaridade. O homem, disse o 
abade Gerbet,  a sombra de um Deus no corpo de um animal: existem os amigos do anjo e os 
complacentes para com o animal. O anjo atrai-nos, mas, se no tomamos cuidado,  a besta que 
nos leva: ela deve mesmo fatalmente levar-nos quando se trata de asneiras, isto , das satisfaes 
desta vida nutriz da morte, que na linguagem das bestas chama-se vida real. Em religio, o 
Evangelho  um guia seguro, o mesmo no sendo em negcios, e muitas pessoas, quando se 
tratasse de estabelecer a sucesso temporal de Jesus Cristo, se entenderiam melhor com Judas 
Iscariotes do que com So Pedro.
Admiram a probidade, disse Juvenal, e no lhe do o que lhe cabe. Se, por exemplo, tal homem 
clebre no tivesse escandalosamente mendigado a riqueza, algum teria pensado em 
recompensar sua velha musa? Alguma herana lhe teria cado do cu? A virtude toma nossa 
admirao, nossa bolsa, portanto, nada lhe deve, essa grande dama  bastante rica sem ns. 
Preferimos dar ao vcio, ele  to pobre!
"No gosto dos mendigos e dou apenas aos pobres vergonhosos", dizia um homem inteligente. 
"Mas o que lhes dais, se no os conheceis?" "Dou-lhes minha admirao e minha estima, e no 
preciso conhec-los para isso." "Como necessitais de tanto dinheiro", foi perguntado a outro, "se 
no tendes filhos nem encargos?" "Tenho meus pobres vergonhosos a quem no me posso 
impedir de dar muito." "Apresente-os a mim, talvez d-lhes tambm." "Oh! certamente j conheceis 
alguns. Tenho sete deles, que comem excessivamente, e um oitavo que come mais do que os 
outros sete: os sete so os sete pecados capitais; o oitavo  o jogo."
"Senhor, dai-me cinco francos, estou morrendo de fome." "Imbecil! ests morrendo de fome e 
queres que te encoraje a prosseguir em to mau caminho! Morres de fome e tens a imprudncia de 
confess-lo! Queres tornar-me cmplice de tua incapacidade, nutriz de teu suicdio! Queres um 
prmio pela misria? Por quem me tomas? Acaso sou um traste da tua espcie..."
"Meu amigo, preciso de um milho de escudos para seduzir uma mulher honesta." "Ah! isso  mau; 
mas no sei recusar nada a um amigo. Toma, e quando tiveres conseguido d-me o endereo 
dessa pessoa." Eis o que se chama, na Inglaterra e em outros lugares, agir como um perfeito 
cavalheiro.
"O homem honrado sem trabalho rouba, e no mendiga!", respondeu um dia Cartouche a um 
transeunte que lhe pedia esmola.  enftico como a palavra emprestada a Cambronne; e, na 
realidade, talvez o clebre ladro e o grande general tenham ambos respondido do mesmo modo.
Foi esse mesmo Cartouche quem de outra feita ofereceu, por iniciativa prpria e sem que lhe fosse 
pedido, vinte mil libras a algum falido. Entre irmos  preciso saber viver.
A assistncia mtua  uma lei da natureza. Ajudar nossos semelhantes  ajudar a ns mesmos. 
Mas acima da assistncia mtua eleva-se uma lei maior e mais santa:  a assistncia universal,  a 
caridade.
Todos admiramos e amamos So Vicente de Paulo, mas quase todos temos tambm um fraco 
secreto pela habilidade, pela presena de esprito e, sobretudo, pela audcia de Cartouche.
Os cmplices confessos de nossas paixes podem repugnar-nos humilhando-nos; saberemos, 
sujeitando-nos aos perigos, resistir-lhes por orgulho. Mas que pode haver de mais perigoso para 
ns que nossos cmplices hipcritas e ocultos? Seguem-nos como o desgosto, esperam-nos como 
o abismo, envolvem-nos como a vertigem. Ns os desculpamos para desculparmo-nos, os 
defendemos para defendermo-nos, os justificamos para justificarmo-nos e os suportamos em 
seguida porque  preciso, porque no temos fora para resistir a nossas inclinaes, porque no 
desejamos isso.
Apossaram-se de nosso ascendente, como diz Paracelso, e onde quiserem conduzir-nos iremos.
So nossos maus anjos, sabemo-lo no fundo de nossa conscincia; mas os poupamos, pois 
fizemo-nos seus servidores, a fim de que eles tambm nos sirvam.
Nossas paixes, aduladas e poupadas, tornaram-se servas-senhoras; e os complacentes para com 
nossas paixes so valetes que se tornaram nossos mestres.
Respiramos nossos pensamentos e aspiramos os dos outros impressos na luz astral, tornada sua 
atmosfera eletromagntica: assim, a companhia dos maus  menos funesta para as pessoas de 
bem do que a dos seres vulgares, covardes e mornos. Uma forte antipatia adverte-nos facilmente e 
salva-nos do contato com os vcios grosseiros; no  assim com os vcios disfarados, diminudos 
de certo modo e tornados quase amveis. Uma mulher honesta sentir apenas repulsa em 
companhia de uma moa perdida; mas tem tudo a recear das sedues de uma doidivanas.
Sabemos que a loucura  contagiosa; mas os loucos so mais particularmente perigosos quando 
so amveis e simpticos. Entramos pouco a pouco em seu crculo de idias, chegamos a 
compreender seus exageros compartilhando seus entusiasmos, habituamo-nos  sua lgica 
excepcional e transviada, chegamos a pensar que no so to loucos quanto acreditvamos no 
incio. Da a acreditar que so os nicos a ter razo no h muita distncia. Ns os amamos, os 
aprovamos, estamos loucos como eles.
As afeies so livres e podem ser racionalizadas; mas as simpatias so fatais e muito 
freqentemente desarrazoadas; dependem das atraes mais ou menos equilibradas da luz 
magntica, e agem sobre os homens do mesmo modo que sobre os animais. Divertiremo-nos 
tolamente com uma pessoa que nada tem de amvel porque estamos misteriosamente atrados e 
dominados por ela. Freqentemente, essas simpatias estranhas comearam por vivas antipatias; 
os fluidos repeliam-se no incio, equilibrando-se depois.
A especialidade equilibrante do mediador plstico de cada pessoa  o que Paracelso chama seu 
ascendente, e denomina flagum ao reflexo particular das idias habituais de cada um na luz 
universal.
Chega-se ao conhecimento do ascendente de uma pessoa pela adivinhao sensitiva do flagum, e 
por um direcionamento perseverante da vontade vira-se o lado ativo do prprio ascendente para o 
lado passivo do ascendente do outro, quando se quer apoderar-se do outro e domin-lo.
O ascendente astral foi adivinhado por outros magistas, que o chamaram turbilho.
, dizem eles, uma corrente de luz especializada, reproduzindo sempre um mesmo crculo de 
imagens, e, por conseguinte, de impresses determinadas e determinantes. Esses turbilhes 
existem para os homens como para as estrelas. "Os astros", diz Paracelso, "respiram sua alma 
luminosa e atraem a irradiao uns dos outros. A alma da terra, cativa das leis fatais da gravitao, 
desprende-se especializando-se e passa pelo instinto dos animais para chegar  inteligncia do 
homem. A parte cativa dessa alma  muda, mas conserva por escrito os segredos da natureza. A 
parte livre no pode mais ler essa escritura fatal sem perder instantaneamente sua liberdade. S 
se passa da contemplao muda e vegetativa ao pensamento livre e vibrante mudando de meios e 
de rgos. Da vem o esquecimento que acompanha o nascimento e as reminiscncias vagas de 
nossas intuies doentias, sempre anlogas s vises de nossos xtases e de nossos sonhos."
Essa revelao do grande mestre da medicina oculta lana uma enorme luz sobre todos os 
fenmenos do sonambulismo e da adivinhao. A est, tambm, para quem souber encontr-la, a 
verdadeira chave das evocaes e das comunicaes com a alma fludica da terra.
As pessoas cuja influncia perigosa se faz sentir num nico contato so as que fazem parte de 
uma associao fludica; ou que dispem, quer voluntariamente, quer sem saberem, de uma 
corrente de luz astral desviada. Aquelas, por exemplo, que vivem no isolamento e na privao de 
toda comunicao humana e que esto diariamente em relao fludica com animais reunidos em 
grande nmero, como esto normalmente os pastores, esses esto possudos pelo demnio a que 
se denomina legio, e, por sua vez, reinam despoticamente sobre as almas fludicas dos rebanhos 
confiados  sua guarda: desse modo sua benevolncia ou sua malevolncia faz prosperar ou 
morrer o rebanho; podem exercer essa influncia de simpatia animal sobre mediadores plsticos 
humanos mal defendidos por uma vontade fraca ou uma inteligncia limitada.
Assim explicam-se os encantamentos operados habitualmente pelos pastores e os fenmenos 
ainda muito recentes do presbitrio de Cideville.
Cideville  um pequeno vilarejo da Normandia onde, h alguns anos, produziram-se fenmenos 
semelhantes aos que se produziram, depois, sob a influncia do senhor Home. Mirville estudou-os 
cuidadosamente e Gougenot Desmousseaux repetiu todos seus detalhes num livro publicado em 
1854 e intitulado: Costumes e Prticas dos Demnios. O que h de notvel nesse ltimo autor  
que ele parece adivinhar a existncia do mediador plstico ou do corpo fludico. "Com certeza no 
temos duas almas", diz ele, "mas talvez tenhamos dois corpos." Com efeito, tudo o que ele conta 
pareceria provar essa hiptese. Trata-se de um pastor, cuja forma fludica infestava um presbitrio 
e que foi ferido  distncia pelos golpes desfechados  sua larva astral.
Aqui perguntaremos aos senhores Mirville e Gougenot Desmousseaux se eles tomam esse pastor 
pelo diabo e se, de perto ou  distncia, o diabo, tal como o concebem, pode ser arranhado ou 
ferido. Na Normandia, at ento, quase no eram conhecidas as doenas magnticas dos mdiuns 
e o infeliz sonmbulo, que fora preciso tratar e curar, foi rudemente maltratado e at agredido, 
segundo se diz, no em aparncia fludica, mas em sua prpria pessoa, pelo prprio proco. A 
est, convenhamos, um singular gnero de exorcismo! Se realmente essas violncias 
aconteceram, e se so imputveis a um eclesistico que dizem, e que pode ser, credulidade  
parte, muito bom e respeitvel, reconheamos que escritores como Mirville e Gougenot 
Desmousseaux tornam-se de certo modo seus cmplices.
As leis da vida fsica so inexorveis e, em sua natureza animal, o homem nasce escravo da 
fatalidade; e   custa de lutas contra os instintos que ele pode conquistar a liberdade moral. Duas 
existncias diferentes, portanto, nos so possveis na terra: uma fatal, a outra livre. O ser fatal  o 
joguete ou o instrumento de uma fora que ele no dirige: ora, quando os instrumentos da 
fatalidade se encontram e se chocam, o mais forte destri ou domina o mais fraco; os seres 
verdadeiramente libertos no temem nem as bruxarias nem as influncias misteriosas.
Dir-nos-o que o encontro de Caim pode ser fatal para Abel. Sem dvida; mas semelhante 
fatalidade  uma felicidade para a santa e pura vtima,  uma infelicidade apenas para o assassino.
Assim como entre os justos existe uma grande comunidade de virtudes e mritos, existe entre os 
maus uma solidez absoluta de culpabilidade fatal e castigo necessrio. O crime est nas 
disposies do corao. As circunstncias quase sempre independentes da vontade fazem 
sozinhas a gravidade dos atos. Se a fatalidade tivesse feito de Nero um escravo, ele se teria 
tornado um histrio ou um gladiador e no teria incendiado Roma: seria preciso agradecer-lhe por 
isso?
Nero era cmplice de todo o povo romano e os nicos responsveis pela fria desse monstro eram 
os que a deveriam ter impedido. Sneca, Burro, Trseas, Corbulo, eis os verdadeiros culpados 
desse reino terrvel: grandes homens egostas ou incapazes! Souberam apenas morrer. Se um dos 
ursos do Jardim Zoolgico escapasse e devorasse algumas pessoas, seria ele ou seus vigias 
quem deveria prestar contas? Todo aquele que se liberta dos erros comuns deve pagar um resgate 
proporcional  soma desses erros: Scrates responde por Anito, e Jesus teve que sofrer um 
suplcio que se igualou em horrores a toda a traio de Judas.
 assim que, ao pagar as dvidas da fatalidade, a liberdade conquistada compra o imprio do 
mundo;  a ela que compete ligar ou desligar: Deus entregou-lhe as chaves do cu e do inferno.
Homens que abandonais as bestas a si mesmas, quereis que elas vos devorem.
As multides escravas da fatalidade s podem gozar da liberdade pela obedincia absoluta  
vontade dos homens livres; elas devem trabalhar para eles, porque eles respondem por elas.
Mas, quando a besta governa as bestas, quando o cego conduz os cegos, quando o homem fatal 
governa as massas fatais, o que se deve esperar? Terrveis catstrofes, e elas nunca faltaro.
Ao admitir os dogmas anrquicos de 89, Lus XVI lanara o Estado num declive fatal. A partir 
desse momento todos os crimes da Revoluo pesaram unicamente sobre ele; apenas ele faltara a 
seu dever. Robespierre e Marat haviam feito o que deviam fazer. Girondinos e Montanheses 
fatalmente mataram-se uns aos outros e suas mortes violentas foram apenas catstrofes 
necessrias; houve nessa poca apenas um grande e legtimo suplcio, verdadeiramente sagrado, 
verdadeiramente expiatrio: o do rei. O princpio da realeza devia cair se esse prncipe demasiado 
fraco tivesse sido absoluto. Mas era impossvel uma transao entre a ordem e a desordem. No 
se herda dos que so assassinados, eles so poupados, e a Revoluo reabilitou Lus XVI ao 
assassin-lo. Aps tantas concesses, fraquezas, indignas vilezas, esse homem sagrado uma 
segunda vez pela desgraa pde ao menos dizer, ao subir ao cadafalso: a Revoluo est julgada, 
e eu continuo sendo o rei da Frana!
Ser justo  sofrer por todos os que no o so, mas  viver; ser mau  sofrer por si mesmo sem 
conquistar a vida,  enganar-se, agir mal e morrer eternamente.
Resumindo: as influncias fatais so as da morte, as influncias salutares so as da vida. 
Conforme sejamos mais fracos ou mais fortes na vida, atramos ou repelimos o malefcio. Esse 
poder oculto no  seno demasiado real; mas a inteligncia e a virtude tero sempre os meios de 
evitar suas obsesses e seus ataques.
 
CAPTULO IV
Mistrios da perversidade 
O equilbrio humano compe-se de dois atrativos; um pela morte, o outro pela vida. A fatalidade  
a vertigem que nos atrai para o abismo; a liberdade  o esforo racional que nos eleva acima das 
atuaes fatais da morte.
O que  um pecado mortal?  uma apostasia de nossa liberdade;  um abandono de ns mesmos 
s leis materiais da gravidade; um ato injusto  um pacto com a injustia: ora, toda injustia  uma 
abdicao da inteligncia. Camos, ento, sob o imprio da fora, cujas reaes sempre esmagam 
tudo o que se afasta do equilbrio.
O amor pelo mal e a adeso formal da vontade  injustia so os ltimos esforos da vontade 
expirante. O homem, no importa o que faa,  mais forte que o bruto e no pode, como este, 
abandonar-se  fatalidade.  necessrio que escolha e que ame. A alma desesperada que se 
acredita apaixonada pela morte est ainda mais viva do que uma alma sem amor. A atividade para 
o mal pode e deve reconduzir o homem ao bem por contragolpe e reao. O verdadeiro mal sem 
remdio  a inrcia.
Aos abismos da perversidade correspondem os abismos da graa. Freqentemente Deus fez de 
celerados santos; nunca fez nada de mornos e de covardes.
Sob pena de reprovao,  preciso trabalhar,  preciso agir. A natureza, alis, prov para isso, e 
se no queremos, com toda nossa coragem, ir em direo  vida, ela nos precipita com todas as 
suas foras para a morte. Os que no querem caminhar, ela os arrasta.
Um homem que poderia ser chamado o grande profeta dos brios, Edgar Poe, esse alucinado 
sublime, esse gnio da extravagncia lcida, descreveu com uma realidade assustadora os 
pesadelos da perversidade...
"Matei este velho porque era estrbico. Fiz isso porque no deveria ser feito."
Eis a terrvel contrapartida do Credo quia absurdum, de Tertuliano.
Desafiar Deus e injuri-lo  um ltimo ato de f. "Os mortos no te louvam, Senhor", diz o salmista; 
e poderamos acrescentar, se ousssemos: "Os mortos no te blasfemam."
"Oh! meu filho!", dizia um pai inclinado sobre o leito do filho, cado em letargia aps um violento 
acesso de delrio; "insulta-me; batame, morda-me; sentirei que ainda vives... Mas no fiques para 
sempre neste silncio medonho da tumba!"
Um grande crime sempre protesta contra uma grande tepidez. Cem mil padres honestos teriam 
podido, atravs de uma caridade mais ativa, prevenir o atentado daquele miservel Verger. A 
Igreja deve julgar, condenar, punir um eclesistico escandaloso; mas no tem o direito de 
abandon-los aos frenesis do desespero e s tentaes da misria e da fome.
Nada  to assustador quanto o nada; e se se pudesse jamais formular sua concepo, se fosse 
possvel admiti-lo, o inferno seria uma esperana.
Eis por que a prpria natureza procura e impe a expiao como um remdio; eis por que o 
suplcio suplica, como to bem o compreendeu esse grande catlico chamado conde Joseph de 
Maistre; eis por que a pena de morte  o direito natural e nunca desaparecer das leis humanas. A 
mcula do homicdio seria indelvel se Deus no absolvesse o cadafalso; o poder divino abdicado 
pela sociedade e usurpado pelos celerados pertencer-lhes-ia sem contestao. O assassinato, 
ento, transformar-se-ia em virtude quando exercesse as represlias da natureza ultrajada. As 
vinganas particulares protestariam contra a ausncia da expiao pblica, e com os restos do 
gldio quebrado da justia a anarquia fabricaria punhais para si.
"Se Deus suprimisse o inferno, os homens fariam outro para desafi-lo", dizia-nos um dia um bom 
padre. Tinha razo; e  por isso que o inferno deseja tanto ser suprimido. Emancipao! tal  o 
grito de todos os vcios. Emancipao do homicdio pela abolio da pena de morte; emancipao 
da prostituio e do infanticdio pela abolio do casamento; emancipao da preguia e do roubo 
pela abolio da propriedade... Assim gira o turbilho da perversidade at que chegue a esta 
frmula suprema e secreta: Emancipao da morte pela abolio da vida!
 pelas vitrias do trabalho que se escapa s fatalidades da dor. O que chamamos morte  
somente o parto eterno da natureza. Ininterruptamente, ela reabsorve e retoma em seu seio tudo o 
que no nasceu do esprito. A matria inerte por si mesma s pode existir pelo movimento 
perptuo, e o esprito naturalmente voltil s pode durar fixando-se. A emancipao das leis fatais 
pela adeso livre do esprito ao verdadeiro e ao bem  o que o Evangelho denomina nascimento 
espiritual; a reabsoro na morada eterna da natureza  a segunda morte.
Os seres no-emancipados so atrados para essa segunda morte por uma gravidade fatal, 
arrastam-se uns aos outros, como o divino Michelangelo to bem nos faz ver em sua grande 
pintura sobre o juzo final; so invasores e tenazes como pessoas que se afogam, e os espritos 
livres devem lutar energicamente contra eles para no serem por eles retidos em seu vo e 
rebaixados fatalmente ao inferno.
Essa guerra  to antiga quanto o mundo; os gregos representavam-na sob os smbolos de Eros e 
Anteros, e os hebreus pelo antagonismo de Caim e Abel.  a guerra dos tits e dos deuses. Os 
dois exrcitos esto em toda a parte, invisveis, mas disciplinados e sempre prontos ao ataque ou 
 represlia. As pessoas ingnuas dos dois partidos, surpresas com as resistncias sbitas e 
unnimes que encontram, acreditam em vastos compls, sabiamente organizados, das sociedades 
ocultas e todo-poderosas. Eugne Sue inventa Rodin; pessoas da Igreja falam de iluminados e de 
maons; Wronski sonha com seus bandos msticos, e o que h de verdadeiro e srio no fundo de 
tudo isso  apenas a luta necessria entre a ordem e a desordem, os instintos e o pensamento; o 
resultado dessa luta  o equilbrio no progresso e o diabo contribui sempre, contra a sua vontade, 
para a glria de So Miguel.
O amor fsico  a mais perversa de todas as paixes fatais.  o anarquista por excelncia; no 
conhece nem leis, nem deveres, nem verdade, nem justia. Faria a moa passar por cima do 
cadver de seus pais.  uma embriaguez irresistivel, uma loucura furiosa, uma vertigem da 
fatalidade que procura novas vtimas; a embriaguez de Saturno que quer ser pai para ter crianas 
a quem devorar. Vencer o amor  triunfar sobre toda a natureza. Submet-lo  justia  reabilitar a 
vida devotando-a  imortalidade; assim, as maiores obras da revelao crist so a criao da 
virgindade voluntria e a santificao do matrimnio.
Enquanto o amor  apenas um desejo e um gozo, ele  mortal. Para eternizar-se  preciso que se 
torne um sacrifcio, pois torna-se, ento, uma fora e uma virtude.  a luta de Eros e Anteros que 
faz o equilbrio do mundo.
Tudo o que superexcita a sensibilidade conduz  depravao e ao crime. As lgrimas chamam o 
sangue. Existem grandes emoes que so como licores fortes, us-las habitualmente  abusar. 
Ora, todo abuso das emoes perverte o sentido moral; buscamo-las por elas mesmas, 
sacrificamos tudo para obt-las. Uma mulher romanesca se tornar facilmente uma herona de 
Tribunal do Jri, chegar talvez ao deplorvel e irreparvel absurdo de suicidar-se para admirar-se 
e enternecer-se consigo mesma vendo-se morrer.
Os hbitos romanescos levam as mulheres  histeria e os homens  depresso. Manfred, Ren, 
Llia so tipos de perversidade muito mais profunda por racionalizarem seu orgulho doentio e 
poetizarem sua demncia. Perguntamo-nos aterrorizados que monstro poderia nascer do 
casamento de Manfred e Llia!
A perda do sentido moral  uma verdadeira alienao; um homem que no obedece  justia antes 
de tudo no se pertence mais, caminha sem luz na noite de sua existncia, agita-se como num 
sonho vtima do pesadelo de suas paixes.
As correntes impetuosas da vida instintiva e as fracas resistncias da vontade formam um 
antagonismo to distinto que os cabalistas acreditaram no embrionato das almas, isto , a 
presena num mesmo corpo de vrias almas que o disputam entre si e freqentemente tentam 
destru-lo, mais ou menos como os nufragos da Medusa, que no momento em que disputavam a 
jangada muito estreita, tentavam faz-la soobrar.
 certo que algum ao se tornar servo de uma corrente qualquer de instintos, ou mesmo de idias, 
aliena sua personalidade e torna-se escravo desse gnio das multides que o Evangelho chama 
Legio.
Os artistas sabem algo sobre isso. Suas freqentes evocaes da luz universal enervam-nos. 
Tornam-se mdiuns, isto , doentes. Quanto mais o sucesso os faz crescer junto  opinio pblica, 
mais sua personalidade enfraquece; tornam-se sujeitos a acessos, absurdos, invejosos, colricos; 
no admitem que outro mrito, mesmo de ordem diferente, possa produzir-se ao lado do seu, e 
desde que se tornam injustos eximem-se at de serem polidos. Para escapar a essa fatalidade os 
verdadeiros grandes homens isolam-se de toda camaradagem liberticida e salvam-se dos atritos 
da vil multido por uma impopularidade orgulhosa: se Balzac, quando vivo, tivesse sido um homem 
de conventculo ou de partido, no teria permanecido, aps sua morte, o grande universal de 
nossa poca.
A luz no ilumina as coisas insensveis nem os olhos fechados, ou pelo menos s as ilumina em 
proveito dos que vem. A palavra do Gnesis, Que se faa a luz!,  o grito de vitria da inteligncia 
triunfante sobre as trevas. Essa palavra  sublime porque exprime com simplicidade a maior e mais 
sublime coisa do mundo: a criao da inteligncia por si mesma quando, convocando seus 
poderes, equilibrando suas faculdades, ela diz: Quero imortalizar-me vendo a verdade eterna, que 
seja a luz! E a luz . A luz eterna como Deus comea todos os dias para os olhos que se abrem. A 
verdade ser eternamente a inveno e como que a criao do gnio: ele grita: Que seja a luz, e 
ele prprio  porque ela . Ele  imortal porque compreendera eterna. Ele contempla a verdade 
como sua obra porque ela  sua conquista, e a imortalidade como seu triunfo porque ela ser sua 
recompensa e sua coroa.
Mas nem todos os espritos vem com justeza porque nem todos os coraes querem com justia. 
Existem almas para as quais a verdadeira luz parece nunca dever existir. Contentam-se com 
vises fosforescentes, abortos de luz, alucinaes do pensamento, e, apaixonadas por esses 
fantasmas, temem o dia que os faria fugirem porque sentem que, no sendo o dia feito para seus 
olhos, voltariam a cair numa profunda escurido. Assim  que os loucos, no incio, temem, depois 
caluniam, insultam, perseguem e condenam os sbios.  preciso compadecer-se deles e perdo-
los, no sabem o que fazem.
A verdadeira luz repousa e satisfaz a alma, a alucinao, ao contrrio, cansa-a e atormenta-a. As 
satisfaes da loucura assemelham-se aos sonhos gastronmicos das pessoas famintas que 
aguam sua fome sem nunca saci-la. Da nascem as irritaes e as perturbaes, os 
desencorajamentos e os desesperos. "A vida sempre nos mentiu", dizem os discpulos de Werther, 
"eis por que queremos morrer!" Pobres crianas, no  a morte que vos seria preciso,  a vida. 
Desde que estais no mundo morreis todos os dias,   cruel volpia do nada que deveis pedir o 
remdio do nada de vossas volpias? No, a vida nunca vos enganou, pois no vivestes ainda. O 
que tomais por vida so as alucinaes e os sonhos do primeiro sono da morte!
Todos os grandes criminosos so alucinados voluntrios, e todos os alucinados voluntrios podem 
ser fatalmente levados a tornarem-se grandes criminosos. Nossa luz pessoal especializada, 
concebida, determinada por nossa afeio dominante  o germe de nosso paraso ou de nosso 
inferno. Cada um de ns de algum modo concebe, pe no mundo e alimenta seu bom anjo ou seu 
mau demnio. A concepo da verdade faz nascer em ns o bom gnio; a percepo desejada da 
mentira  uma incubadora e uma criadora de pesadelos e de vampiros. Cada um deve alimentar 
seus filhos, e nossa vida consome-se em proveito de nossos pensamentos. Felizes os que 
reencontram a imortalidade nas criaes de sua alma! Ai dos que se exaurem para alimentar a 
mentira e engordar a morte, pois cada um gozar o fruto de suas obras.
Existem alguns seres inquietos e atormentados cuja influncia  turbulenta e a conversa, fatal. 
Perto deles sentimo-nos irritados e ao deix-los sentimo-nos encolerizados; entretanto, por uma 
perversidade secreta, ns os procuramos para afrontar a perturbao e gozar as emoes 
malvolas que eles nos do. So doentes contagiosos do esprito de perversidade.
O esprito de perversidade sempre tem por mvel secreto a sede da destruio e por fim o suicdio. 
O assassino Eliabide, segundo suas prprias declaraes, no s experimentava uma 
necessidade selvagem de matar seus parentes e amigos, como tambm gostaria, se isso fosse 
possvel, e disse-o com suas prprias palavras diante do tribunal, de fazer o globo saltar como uma 
castanha cozida. Lacenaire, que passava seus dias combinando assassnios para obter meios de 
passar as noites em ignbeis orgias, ou nos frenesis do jogo, vangloriava-se abertamente de ter 
vivido. Chamava a isso viver! E cantava um hino  guilhotina, que chamava sua bela noiva! E o 
mundo estava repleto de imbecis que admiravam esse celerado! Alfred de Musset, antes de 
aniquilar-se na embriaguez, desperdiou um dos primeiros talentos de seu sculo em contos de 
fria ironia e desgosto universal; o infeliz fora enfeitiado pelo respir de uma mulher profundamente 
perversa, que, aps t-lo morto, acocorou-se sobre seu cadver como um vampiro e rasgou seu 
sudrio. Perguntvamos um dia a um jovem escritor dessa escola o que provava sua literatura. 
"Prova", respondeu-nos franca e ingenuamente, "que  preciso desesperar e morrer." Que 
apostolado e que doutrina! Mas eis as concluses necessrias e rigorosas do esprito de 
perversidade. Aspirar incessantemente ao suicdio, caluniar a vida e a natureza, invocar todos os 
dias a morte sem poder morrer,  o inferno eterno,  o suplcio de Sat, esse avatar mitolgico do 
esprito de perversidade; a verdadeira traduo da palavra grega diabolos, ou diabo,  o 
perverso.
Eis um mistrio de que os pervertidos no desconfiam.  que s se pode gozar os prazeres da 
vida, mesmo os materiais, pelo sentido moral. O prazer  a msica das harmonias interiores; os 
sentidos so apenas seus instrumentos, instrumentos que desafinam ao contato com uma alma 
degradada. Os maus nada podem sentir, porque nada podem amar: para amar,  preciso ser bom. 
Para eles, portanto, tudo  vazio, e parece-lhes que a natureza  impotente, porque eles prprios o 
so, duvidam de tudo porque nada sabem, blasfemam contra tudo porque de nada gostam; se 
afagam,  para emurchecer; se bebem,  para embriagar-se; se dormem,  para esquecer; se 
acordam,  para entediar-se mortalmente: assim viver, ou antes, assim morrer todos os dias 
aquele que se liberta de toda lei e de todo dever para tornar-se escravo de suas fantasias. O 
mundo e a prpria eternidade tornam-se inteis para quem se torna intil para o mundo e para a 
eternidade.
Nossa vontade, ao agir diretamente sobre nosso mediador plstico, isto , sobre a poro de luz 
astral que se especializou em ns e que serve para a assimilao e configurao dos elementos 
necessrios  nossa existncia; nossa vontade, justa ou injusta, harmoniosa ou perversa, configura 
o mediador  sua imagem e d-lhe aptides conforme os nossos atrativos. Assim, a 
monstruosidade moral produz a fealdade fsica, pois o mediador astral, esse arquiteto interior de 
nosso edifcio corporal, modificado incessantemente segundo nossas necessidades verdadeiras ou 
factcias. Ele faz crescer o ventre e os maxilares do gluto, crispa os lbios do avarento, torna 
impudentes os olhares da mulher impura e venenosos os do invejoso e do mau. Quando o 
egosmo prevaleceu numa alma, o olhar torna-se frio, os traos duros; a harmonia das formas 
desaparece e, segundo a especialidade absorvente ou irradiante desse egosmo, os membros 
dessecam-se ou ficam comprometidos por uma excessiva gordura. A natureza, ao fazer de nosso 
corpo o retrato de nossa alma, garantiu tal semelhana para sempre, e retoca-o incansavelmente. 
Lindas mulheres que no sois bondosas, estai certas de no permanecerdes belas por muito 
tempo. A beleza  um adiantamento que a natureza faz  virtude: se a virtude no est pronta para 
o acerto da dvida, a emprestadora recuperar impiedosamente seu capital.
A perversidade, ao modificar o organismo cujo equilbrio ela destri, cria ao mesmo tempo a 
fatalidade das necessidades que impele  destruio do prprio organismo e  morte. Quanto 
menos o perverso desfruta, mais sede de prazer tem. O vinho  como gua para o brio, o ouro 
derrete nas mos do jogador; Messalina cansa-se sem ficar saciada. A volpia que lhes escapa 
transforma-se para eles num longo desejo irritado. Quanto mais seus excessos so homicidas, 
mais parece-lhes que a suprema felicidade se aproxima... Mais uma golada de licor forte, mais um 
espasmo, mais uma violncia contra a natureza... Ah! finalmente, o prazer! a vida... e seu desejo, 
no paroxismo de sua insacivel fome, extingue-se para sempre na morte!
Quarta Parte 
Os grandes segredos prticos ou as realizaes da cincia 
Introduo 
As altas cincias da Cabala e da magia prometem ao homem um poder excepcional, real, efetivo, 
realizador, e deve-se encar-las como vs e mentirosas se no o do.
Vs julgareis os doutores por suas obras, dizia o mestre supremo, e essa regra de julgamento  
infalvel.
Se quereis que eu acredite no que sabeis, mostrai-me o que fazeis.
Deus, para elevar o homem  emancipao moral, esconde-se dele e de certo modo abandona-lhe 
o governo do mundo. Deixa-se adivinhar pelas grandezas e harmonias da natureza, a fim de que o 
homem se aperfeioe progressivamente, sempre ampliando a idia que faz de seu autor.
O homem conhece Deus apenas pelos nomes que d a esse Ser dos seres e s o distingue pelas 
imagens que dele tenta traar. Assim, ele  de certo modo o criador daquele que o criou. Acredita-
se o espelho de Deus e, ampliando indefinidamente sua prpria miragem, acredita poder esboar 
no espao infinito a sombra daquele que  sem corpo, sem sombra e sem espao.
CRIAR DEUS, CRIAR-SE A SI PRPRIO, TORNAR-SE INDEPENDENTE, IMPASSVEL E 
IMORTAL: a est com certeza um programa mais temerrio do que o sonho de Prometeu. Pois 
bem, esse programa  paradoxal apenas na forma que empresta a uma falsa e sacrlega 
interpretao. Num sentido ele  perfeitamente razovel, e a cincia dos adeptos promete realiz-
lo e dar-lhe uma perfeita execuo.
O homem, com efeito, cria um Deus conforme  sua prpria inteligncia e  sua prpria bondade, 
no pode elevar seu ideal mais alto do que lhe permite seu desenvolvimento moral. O Deus que 
ele adora  sempre seu prprio reflexo aumentado. Conceber o que seja o absoluto em bondade e 
em justia  ser ele prprio muito justo e muito bom.
As qualidades do esprito, as qualidades morais so riquezas, e as maiores de todas as riquezas. 
 preciso adquiri-las pela luta e pelo trabalho. Objetar-nos-o a desigualdade das aptides e as 
crianas que nascem com uma organizao mais perfeita. Mas devemos crer que tais 
organizaes so o resultado de um trabalho mais avanado da natureza e que as crianas delas 
dotadas adquiriram-nas, seno por seus prprios esforos, ao menos pelas obras solidrias dos 
seres humanos a quem sua existncia est ligada.  um segredo da natureza, que nada faz ao 
acaso; a propriedade das faculdades intelectuais mais desenvolvidas como a do dinheiro e das 
terras constitui um direito imprescritvel de transmisso e de herana.
Sim, o homem  chamado a terminar a obra de seu Criador, e cada um dos instantes por ele 
empregados para tornar-se melhor ou perder-se  decisivo para toda uma eternidade.  pela 
conquista de uma inteligncia para sempre reta e de uma vontade para sempre justa que ele se 
torna vivo para a vida eterna, pois que nada sobrevive  injustia e ao erro, a no ser a pena por 
sua desordem. Compreender o bem  quer-lo, e, na ordem da justia, querer  fazer. Eis por que 
o Evangelho nos diz que os homens sero julgados segundo suas obras.
Nossas obras tanto nos fazem o que somos, que, como j dissemos, nosso corpo sofre 
modificao com nossos hbitos e, algumas vezes, transformao total de sua forma.
Uma forma conquistada ou suportada torna-se para toda a existncia uma providncia ou uma 
fatalidade. Essas figuras estranhas que os egpcios davam aos smbolos humanos da divindade 
representam as formas fatais. Tfon, por sua boca de crocodilo, est condenado a devorar 
incessantemente para encher seu ventre de hipoptamo. Assim, por sua voracidade e sua 
fealdade,  consagrado  destruio eterna.
O homem pode matar ou vivificar suas faculdades pela negligncia ou pelo abuso. Pode criar para 
si faculdades novas pelo bom uso das que recebeu da natureza. Freqentemente se diz que as 
afeies no podem ser comandadas, que a f no  possvel a todos, que no se refaz o carter, 
e todas essas asseres so verdadeiras apenas para os preguiosos ou os perversos. Algum 
pode se tornar crente, piedoso, amante, devoto, quando sinceramente o quer. Pode-se dar a calma 
da justeza ao esprito como a onipotncia da justia  vontade. Pode-se reinar no cu pela f, e na 
terra pela cincia. O homem que sabe comandar a si prprio  rei de toda a natureza.
Vamos mostrar, neste ltimo livro, por que meios os verdadeiros iniciados tornaram-se mestres de 
vida comandando a dor e a morte; como operam em si mesmos e nos outros as transformaes de 
Proteu; como exercem as adivinhaes de Apolnio; como fazem o ouro de Raimundo Llio e de 
Flamel; como possuem, para renovar sua juventude, os segredos de Postel, o Ressuscitado, e do 
fabuloso Cagliostro. Vamos dizer, enfim, a ltima palavra da magia.
 
CAPTULO I
Da transformao. A vara de Circe.
O banho de Media. A magia vencida por suas prprias armas.
O grande arcano dos jesutas e o segredo de seu poder 
A Bblia conta que o rei Nabucodonosor, no auge de seu poder e orgulho, foi repentinamente 
transformado em besta.
Fugiu para lugares selvagens, ps-se a pastar a relva, deixou crescer a barba, os cabelos e todo o 
plo do corpo, bem como as unhas, e permaneceu nesse estado durante sete anos.
Em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia, dissemos o que pensamos dos mistrios da licantropia, 
ou seja, da metamorfose dos homens em lobisomens.
Todos conhecem a fbula de Circe e compreendem sua alegoria.
O ascendente fatal de uma pessoa sobre outra  a verdadeira vara de Circe.
Sabe-se que quase todas as fisionomias humanas portam alguma semelhana com um animal, isto 
, a assinatura de um instinto especializado.
Ora, os instintos so balanceados pelos instintos contrrios e dominados por instintos mais fortes.
Para dominar os carneiros, o co explora o medo do lobo.
Se vs sois co, e se quereis que uma linda gatinha vos ame, tendes apenas uma medida a tomar: 
metamorfosear-vos em gato.
Como? Pela observao, imitao e imaginao. Pensamos que se compreende aqui nossa 
linguagem figurada, e recomendamos essa revelao a todos os magnetistas; a est o mais 
profundo de todos os segredos de sua arte.
Eis sua frmula em termos tcnicos:
"Polarizar sua prpria luz animal, em antagonismo equilibrado com um plo contrrio."
Ou ento:
Concentrar em si mesmo as especialidades absorventes para dirigir as irradiantes para uma 
morada absorvente; e vice-versa.
Esse governo de nossa polarizao magntica pode ser feito com o auxlio das formas animais de 
que falamos, e que serviro para fixar a imaginao.
Demos um exemplo:
Quereis agir magneticamente sobre uma pessoa polarizada como vs, o que sabereis no primeiro 
contato, se fordes magnetizador; porm, ela  um pouco menos forte que vs:  um rato, sois uma 
ratazana. Fazei-vos gato, e tom-la-eis.
Num dos admirveis contos que no inventou, mas que narrou melhor do que ningum, Perrault 
pe em cena um mestre gato que, por seus ardis, induz um ogro a metamorfosear-se em rato; mal 
ele acabara de faz-lo, foi devorado pelo gato. Os contos da Mame Gansa seriam, como o Asno 
de Ouro, de Apuleio, verdadeiras lendas mgicas, e ocultariam, sob a aparncia pueril, os 
formidveis segredos da cincia?
Sabe-se que os magnetizadores do  gua pura, apenas com a imposio das mos, isto , de 
sua vontade expressa por um sinal, as propriedades e o sabor do vinho, dos licores e de todos os 
medicamentos possveis.
Sabe-se tambm que os domadores de animais ferozes subjugam os lees fazendo-se eles 
mesmos mental e magneticamente mais fortes e mais ferozes que os lees.
Jules Grard, o intrpido matador de lees da frica, seria devorado se tivesse medo. Mas, para 
no ter medo de um leo,  preciso, por um esforo de imaginao e de vontade, fazer-se mais 
forte e mais selvagem que o prprio animal;  preciso dizer a si mesmo: O leo sou eu, e este 
animal diante de mim  apenas um co que deve sentir medo.
Fourier sonhara os antilees: Jules Grard realizou essa quimera do sonhador falansteriano.
Mas, para no temer os lees, basta ser um homem corajoso e ter armas, diro.
No, isso no basta.  preciso, por assim dizer, conhecer de cor seu leo, calcular as investidas do 
animal, adivinhar seus ardis, evitar suas garras, prever seus movimentos, numa palavra, ser 
mestre na profisso de leo, como diria o bom La Fontaine.
Os animais so os smbolos vivos dos instintos e das paixes dos homens. Se tornais um homem 
temeroso, vs o transformais em lebre; se, ao contrrio, impeli-o  ferocidade, fazeis dele um tigre. 
A vara de Circe  o poder fascinador da mulher; e os companheiros de Ulisses transformados em 
porcos no so uma histria apenas daquele tempo.
Mas nenhuma metamorfose se opera sem destruio. Para transformar um gavio em pomba,  
necessrio primeiro mat-lo, depois cort-lo em pedaos, de modo a destruir at o menor vestgio 
de sua primeira forma, depois ferv-lo no banho mgico de Media.
Vede como os hierofantes modernos procedem para realizar a regenerao humana; como fazem, 
por exemplo, na religio catlica para transformarem um homem mais ou menos fraco e 
apaixonado num estico missionrio da Companhia de Jesus.
A est o grande segredo dessa ordem venervel e terrvel, sempre desconhecida, freqentemente 
caluniada e sempre soberana.
Lede atentamente o livro intitulado os Exerccios de Santo Incio e vede com que mgico poder 
esse gnio opera a realizao da f.
Ele ordena a seus discpulos que vejam, toquem, cheirem, degustem as coisas invisveis; quer que 
os sentidos sejam exaltados na orao at a alucinao voluntria. Meditais sobre um mistrio da 
f, Santo Incio quer primeiramente que construais um lugar, que o sonheis, vejais, toqueis. Se  o 
inferno, ele vos faz tatear rochas ardentes, nadar em trevas espessas como o pez, coloca em 
vossa lngua enxofre lquido, enche vossas narinas de um abominvel mau cheiro; mostra-vos 
atrozes suplcios, vos faz ouvir gemidos sobre-humanos; diz  vossa vontade para criar tudo isso 
atravs de exerccios persistentes. Cada um o faz a seu modo, mas sempre da forma mais capaz 
de impression-lo. No  mais a embriaguez do haxixe servindo  fraude do Velho da Montanha;  
um sonho sem sono, uma alucinao sem loucura, uma viso racional e intencional, uma criao 
verdadeira da inteligncia e da f. Da em diante, ao pregar, o jesuta poder dizer:  o que vimos 
com nossos olhos, o que ouvimos com nossos ouvidos, o que nossas mos tocaram,  isso o que 
vos anunciamos. O jesuta assim formado comunga com um crculo de vontades exercitadas como 
a sua: desse modo, cada um dos padres  forte como a sociedade, e a sociedade  mais forte que 
o mundo.
 
CAPTULO II
Como se pode conservar e renovar a juventude. Os segredos de Cagliostro.
A possibilidade da ressurreio. Exemplo de Guilherme Postel, dito
o Ressuscitado. De um operrio taumaturgo, etc. 
Sabemos que uma vida sbria, moderadamente laboriosa e perfeitamente regular geralmente 
prolonga a existncia. Mas  pouco, a nosso ver, a prolongao da velhice; temos o direito de pedir 
 cincia que professamos outros privilgios e outros segredos.
Ser por muito tempo jovem, ou mesmo voltar a s-lo, eis o que pareceria, com razo, desejvel e 
precioso para a maioria dos homens.  possvel?  o que vamos examinar.
O famoso conde de Saint-Germain morreu, no duvidamos disso; mas nunca o viram envelhecer. 
Aparentava sempre quarenta anos, e no auge de sua celebridade afirmava ter mais de oitenta.
Ninon de lEnclos, tendo atingido uma idade avanada, era ainda uma mulher jovem, bela e 
sedutora. Morreu sem ter envelhecido.
Desbarrolles, o clebre quiromante, h muito tempo  para todo o mundo um homem de trinta e 
cinco anos. Sua certido de nascimento diria outra coisa, se ousasse mostrar-se; mas ningum 
acreditaria.
Cagliostro sempre foi visto com a mesma idade, e no apenas pretendia possuir um elixir que 
devolvia aos idosos, por um instante, todo o vigor da juventude, como tambm gabava-se de 
operar a regenerao fsica por meios que detalhamos e analisamos em nossa Histria da 
Magia.
Cagliostro e o conde de Saint-Germain atribuam a conservao de sua juventude  existncia e 
ao uso da medicina universal, inutilmente procurada por tantos sopradores e alquimistas.
Um iniciado do sculo XVI, o bom e sbio Guilherme Postel, no afirmava possuir o grande arcano 
da filosofia hermtica; e no entanto, aps o terem visto velho e alquebrado, viram-no novamente 
com uma tez vermelha e sem rugas, barba e cabelos negros, corpo gil e vigoroso. Seus inimigos 
pretenderam que ele se maquiava e que tingia os cabelos; pois os zombeteiros e os falsos sbios 
necessitam de uma explicao qualquer para fenmenos que no compreendem.
O grande meio mgico para conservar a juventude do corpo  impedir a alma de envelhecer, 
conservando-lhe preciosamente o frescor original de sentimentos e pensamentos que o mundo 
corrompido denomina iluses, e a que chamaremos miragens primitivas da verdade eterna.
Acreditar na felicidade da terra, na amizade, no amor, numa Providncia materna que conta todos 
os nossos passos e recompensar todas as nossas lgrimas  ser perfeitamente ingnuo, dir o 
mundo corrompido; e no v que o ingnuo  ele, que se acredita forte privando-se de todas as 
delcias da alma.
Acreditar no bem da ordem moral  possuir o bem: e  por isso que o Salvador do mundo prometia 
o reino do cu aos que se tornassem semelhantes s criancinhas. O que  a infncia?  a idade 
da f. A criana ainda nada sabe da vida; desse modo, resplandece de imortalidade confiante. 
Como poderia duvidar da dedicao, da ternura, da amizade, do amor, da Providncia, quando 
est nos braos de sua me?
Fazei-vos crianas de corao e permanecereis jovens de corpo.
As realidades de Deus e da natureza superam infinitamente em beleza e bondade toda a 
imaginao dos homens. Assim, os empedernidos so pessoas que nunca souberam ser felizes; e 
os desiludidos provam, por seus dissabores, que beberam apenas em fontes lamacentas. Para 
gozar os prazeres, mesmo sensuais, da vida,  preciso ter o sentido moral; e os que caluniam a 
existncia certamente deles abusaram.
A alta magia, como provamos, reconduz o homem s leis da mais pura moral. Vel sanctum invenit, 
vel sanctum facit, disse um adepto; pois ela nos faz compreender que, para ser feliz, mesmo neste 
mundo,  preciso ser santo.
Ser santo!  fcil dizer; mas como dar-se a f, quando no se acredita mais? Como reencontrar o 
gosto da virtude num corao tornado inspido pelo vcio?
Trata-se aqui de recorrer aos quatro verbos da cincia: saber, ousar, querer e calar-se.
 preciso impor silncio aos dissabores, estudar o dever e comear por pratic-lo como se o 
amasse.
Vs sois incrdulo, por exemplo, e gostareis de tornar-vos cristo.
Fazei os exerccios de um cristo. Orai regularmente, servindo-vos das frmulas crists; aproximai-
vos dos sacramentos supondo a f, e a f vir. A est o segredo dos jesutas, contido nos 
exerccios espirituais de Santo Incio.
Por exerccios anlogos, um tolo, se o quisesse com perseverana, tornar-se-ia um homem 
inteligente.
Mudando-se os hbitos da alma, mudam-se certamente os do corpo: j o dissemos e explicamos 
como.
O que contribui, sobretudo, para envelhecer-nos tornando-nos feios so os pensamentos 
rancorosos e amargos, os julgamentos desfavorveis que fazemos dos outros, nossas raivas por 
orgulho ferido e paixes malsatisfeitas. Uma filosofia benevolente e doce evitar-nos-ia todos esses 
males.
Se fechssemos os olhos aos defeitos do prximo, levando em conta apenas suas boas 
qualidades, encontraramos o bem e a benevolncia em toda a parte. O homem mais perverso tem 
seu lado bom e abranda-se quando se sabe abord-lo. Se nada tivsseis em comum com os vcios 
dos homens, nem mesmo os percebereis. A amizade e as dedicaes que ela inspira encontram-
se at nas penitencirias e nas prises de forados. O horrvel Lacenaire devolvia fielmente o 
dinheiro que lhe haviam emprestado, e vrias vezes teve atos de generosidade e beneficncia. 
No tenho dvidas de que na vida criminosa de Cartouche e Mandrin tenha havido lances de 
virtude capazes de tirar lgrimas dos olhos. Nunca houve ningum totalmente mau nem totalmente 
bom. "Ningum  bom, a no ser Deus", disse o melhor dos mestres.
O que tomamos em ns por zelo da virtude  freqentemente apenas um secreto amor-prprio 
dominador, um cime dissimulado e um instinto orgulhoso de contradio. "Quando vemos 
desordens manifestas e pecadores escandalosos", dizem os autores da teologia mstica, "cremos 
que Deus os submete a maiores provas do que ns, que certamente, ou pelo menos muito 
provavelmente, no as merecemos, e que faramos bem pior em seu lugar."
A paz! a paz! Tal  o bem supremo da alma, e foi para nos dar esse bem que Cristo veio ao 
mundo.
Glria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que desejam o bem!, clamavam os espritos 
do cu quando o Salvador acabava de nascer.
Os antigos pais do cristianismo contavam um oitavo pecado capital: a tristeza.
De fato, o prprio arrependimento para o verdadeiro cristo no  uma tristeza,  um consolo, uma 
alegria e um triunfo. "Queria o mal e no o quero mais, estava morto e estou vivo. O pai do filho 
prdigo matou o novilho gordo porque seu filho voltou, que pode fazer o filho prdigo? Chorar, um 
pouco de confuso, mas sobretudo de alegria!
Existe apenas uma coisa triste no mundo,  a loucura e o pecado. Visto que estamos livres, riamos 
e gritemos de alegria, pois estamos salvos e todos os mortos que nos amam regozijam-se no cu!
Todos trazemos em ns um princpio de morte e um princpio de imortalidade. A morte  a besta, e 
a besta sempre produz a tolice. Deus no ama os tolos, pois seu esprito divino denomina-se 
esprito de inteligncia. A tolice expia pela dor e escravido. O basto  feito para as bestas.
Um sofrimento  sempre uma advertncia, tanto pior para o que no sabe compreender. Quando a 
natureza puxa a corda  porque estamos andando de lado, quando bate  porque o perigo urge. 
Ai, ento, de quem no reflete!
Quando estamos maduros para a morte, deixamos a vida sem pesar e nada nos faria retornar; mas 
quando a morte  prematura a alma lamenta a perda da vida, e um taumaturgo hbil poderia 
cham-la de volta ao corpo. Os livros sagrados indicam-nos o procedimento que se deve, ento, 
adotar. O profeta Elias e o apstolo So Paulo empregaram-nos com sucesso. Trata-se de 
magnetizar o defunto colocando os ps sobre seus ps, as mos sobre suas mos, a boca sobre 
sua boca, depois reunir toda a vontade e chamar a si longamente a alma evadida com todas as 
benevolncias e carinhos mentais de que se  capaz. Se o operador inspira  alma defunta muita 
afeio, ou um grande respeito, se no pensamento que lhe comunica magneticamente o 
taumaturgo pode persuadi-la de que a vida lhe  ainda necessria e que dias felizes lhe esto 
ainda prometidos aqui embaixo, ela certamente retomar, e para os homens de cincia vulgar a 
morte aparente ter sido apenas uma letargia.
Foi aps uma letargia semelhante que Guilherme Postel, chamado de volta  vida pelos cuidados 
da me Joana, reapareceu com uma juventude nova e passou a chamar-se Postel, o 
Ressuscitado, Postellus restitutus.
No ano de 1799, havia no subrbio de Santo Antnio, em Paris, um ferrador que se fazia passar 
por adepto da cincia hermtica, chamava-se Leriche e passava por ter operado, pela medicina 
universal, curas milagrosas e at mesmo ressurreies. Uma danarina da pera, que acreditava 
nele, um dia foi procur-lo em lgrimas e disse-lhe que seu amante morrera. O senhor Leriche 
acompanhou-a  casa morturia. Quando entrava, uma pessoa que saa disse-lhe: " intil o 
senhor subir, ele morreu h seis horas." "No importa", disse o ferrador, "j que eu vim, vou v-lo." 
Subiu, encontrou um cadver com o corpo todo gelado, exceto na cavidade do estmago, onde ele 
acreditou sentir ainda um pouco de calor. Mandou acender um grande fogo, operou frices em 
todo o corpo com toalhas quentes, esfregou-o com medicina universal diluda em lcool (sua 
pretensa medicina universal devia ser um p mercurial anlogo ao quermes das farmcias), 
enquanto isso a amante do morto chorava e chamava-o  vida com as mais ternas palavras. Aps 
uma hora e meia de semelhantes cuidados, Leriche ps um espelho diante do rosto do paciente e 
achou-o levemente embaado. Os cuidados foram redobrados e logo houve um sinal de vida mais 
acentuado; colocaram-no, ento, num leito bem aquecido e poucas horas depois ele retomara 
inteiramente  vida. Esse ressuscitado chamava-se Candy, viveu, desde ento, sem nunca 
adoecer. Em 1845, vivia ainda e morava na praa Chevalier-du-Guet, n 6. Contava sua 
ressurreio a quem quisesse ouvir, e provocava o riso dos mdicos e dos membros do conselho 
profissional de seu bairro. O bom homem consolava-se  maneira de Galileu e respondia-lhes: 
"Oh! riam o quanto quiserem. Tudo o que sei  que o mdico-legista tinha vindo, que a inumao 
estava permitida, que dezoito horas mais tarde iam me enterrar e que aqui estou."
 
CAPTULO III
O grande arcano da morte 
Entristecemo-nos com freqncia ao pensar que a mais bela vida deve terminar, e a aproximao 
deste terrvel desconhecido a que se denomina morte faz com que nos enfastiemos com todas as 
alegrias da existncia.
Por que nascer, se se deve viver to pouco? Por que educar com tantos cuidados crianas que 
morrero? Eis o que pergunta a ignorncia humana em suas mais freqentes e mais tristes 
dvidas.
Eis tambm o que vagamente se pode perguntar o embrio humano ao aproximar-se o nascimento 
que vai lan-lo num mundo desconhecido, despojando-o de seu invlucro protetor. Estudemos o 
mistrio do nascimento e teremos a chave do grande arcano da morte.
Lanado pelas leis da natureza no ventre de uma mulher, o esprito encarnado acorda a 
lentamente, e com esforo cria em si rgos indispensveis mais tarde, mas que,  medida que 
crescem, aumentam seu mal-estar na situao presente. O tempo mais feliz da vida do embrio  
aquele em que, sob a simples forma de uma crislida, estende  sua volta a membrana que lhe 
serve de abrigo e que nada com ele num fluido nutriente e conservador. Ele , ento, livre e 
impassvel, vive da vida universal e recebe o cunho das lembranas da natureza que determinaro, 
mais tarde, a configurao de seu corpo e a forma dos traos de seu rosto. Essa idade feliz 
poderia chamar-se a infncia do embrio.
A seguir vem a adolescncia, a forma humana torna-se distinta e o sexo determina-se, um 
movimento opera-se no ovo materno semelhante aos vagos devaneios da idade que sucede  
infncia. A placenta, que  o corpo externo e real do feto, sente germinar em si algo de 
desconhecido que j tende a escapar-se, rompendo-a. A criana, ento, entra mais distintamente 
na vida dos sonhos, seu crebro, invertido como um espelho de sua me, reproduz com tanta fora 
as imaginaes desta, que comunica sua forma aos prprios membros. Sua me, ento,  para ele 
o que Deus  para ns,  uma providncia desconhecida, invisvel, a que ele aspira a ponto de 
identificar-se em tudo com o que ela admira. Est preso a ela, vive atravs dela e no a v, nem 
mesmo pode compreend-la, e se pudesse filosofar talvez negasse a existncia pessoal e a 
inteligncia dessa me que para ele ainda  apenas uma priso fatal e um aparelho conservador. 
Pouco a pouco, no entanto, essa sujeio incomoda-o, agita-se, atormenta-se, sofre, sente que 
sua vida vai terminar. Chega uma hora de angstia e convulso, seus liames desprendem-se, 
sente que vai cair no abismo do desconhecido. Est feito, ele cai, uma sensao dolorosa oprime-
o, um frio estranho invade-o, solta um ltimo suspiro que se transforma num primeiro grito; morreu 
para a vida embrionria, nasceu para a vida humana!
Na vida embrionria, parecia-lhe que a placenta era seu corpo, e de fato era seu corpo especial 
embrionrio, corpo intil para uma outra vida e que deve ser rejeitado como uma imundcie no 
instante do nascimento.
Nosso corpo na vida humana  como um segundo invlucro intil para a terceira vida e  por isso 
que o rejeitamos no instante de nosso segundo nascimento.
A vida humana comparada  vida celeste  um verdadeiro embrionato. Quando as ms paixes 
nos matam, a natureza aborta e nascemos antes do tempo para a eternidade, o que nos expe  
dissoluo terrvel a que So Joo chama segunda morte.
Segundo a tradio constante dos extticos, os abortos da vida humana permanecem nadando na 
atmosfera terrestre que eles no podem ultrapassar e que aos poucos os absorve e os afoga. Tm 
a forma humana, mas sempre imperfeita e truncada: a um falta a mo, a outro um brao, este j 
tem s o tronco, este ltimo  uma cabea plida que rola. O que os impediu de subirem ao cu foi 
um ferimento recebido durante a vida humana, ferimento moral que causou uma disformidade 
fsica e, por esse ferimento, pouco a pouco toda sua existncia se vai.
Logo, sua alma imortal ficar nua e, para esconder sua vergonha criando a qualquer preo um 
novo vu, ser obrigada a arrastar-se nas trevas exteriores e a atravessar lentamente o mar morto, 
isto , as guas adormecidas do antigo caos.
Essas almas feridas so as larvas do segundo embrionato, alimentam seu corpo areo com o 
vapor do sangue propagado e temem a ponta das espadas. Freqentemente ligam-se aos homens 
viciados e vivem de sua vida como o embrio vive no seio da me; podem, ento, tomar as mais 
horrveis formas para representar os desejos desenfreados dos que as alimentam, e so elas que 
aparecem sob a forma de demnios aos miserveis operadores das obras sem nome da magia 
negra.
Essas larvas temem a luz, sobretudo a luz dos espritos. Um claro de inteligncia basta para 
fulmin-las e precipit-las nesse mar morto que no se deve confundir com o lago Asfaltite, na 
Palestina. Tudo o que aqui revelamos pertence  tradio hipottica dos videntes e s pode ser 
afirmado diante da cincia em nome dessa filosofia excepcional que Paracelso chamava a filosofia 
da sagacidade, philosophia sagax. 
 
CAPTULO IV
O grande arcano dos arcanos 
O grande arcano, isto , o segredo indizvel inexplicvel,  a cincia absoluta do bem e do mal.
"Quando tiverdes comido o fruto desta rvore, sereis como deuses", diz a serpente.
"Se comerdes, morrereis", responde a sabedoria divina.
Assim, o bem e o mal frutificam numa mesma rvore e brotam de uma mesma raiz.
O bem personificado  Deus.
O mal personificado  o diabo.
Saber o segredo ou a cincia de Deus  ser Deus.
Saber o segredo ou a cincia do diabo  ser o diabo.
Querer ser ao mesmo tempo Deus e diabo  absorver em si a antinomia mais absoluta, as duas 
foras contrrias mais tensas;  querer abrigar um antagonismo infinito.
 beber um veneno que apagaria os sis e que consumiria mundos.
 vestir a tnica devorante de Dejanira.
 votar-se  mais pronta e mais terrvel de todas as mortes.
Ai daquele que quer saber demais! Pois se a cincia excessiva e temerria no o matar o tornar 
louco!
Comer o fruto da rvore da cincia do bem e do mal  associar o mal ao bem e assimil-los um ao 
outro.
 cobrir com a mscara de Tfon o rosto irradiante de Osris.
 erguer o vu sagrado de sis,  profanar o santurio.
O temerrio que ousa olhar o sol sem sombra torna-se cego e, ento, para ele o sol  negro!
 proibido contarmos mais, terminaremos nossa revelao pela figura de trs pentculos.
Essas trs estrelas dizem o bastante, pode-se compar-las quelas que desenhamos no incio de 
nossa histria da magia, e reunindo as quatro ser possvel chegar a entrever o grande arcano dos 
arcanos.
Primeiro Pantculo, a estrela branca
A estrela dos Trs Magos
 
 
Segundo Pantculo, a estrela negra
A m estrela
 
 
Terceiro Pentculo, a estrela vermelha
Pentagrama do divino Paracleto
 
Agora, para completar nossa obra, resta-nos dar a grande chave de Guilherme Postel.
Essa chave  a do tar. Vem-se a os quatro naipes, paus, copas, espada, ouros ou crculo, que 
correspondem aos quatro pontos cardeais do cu e aos quatro animais ou signos simblicos, os 
nmeros e as letras dispostos em crculo, depois os sete signos planetrios com a indicao de 
sua trplice repetio expressa nas trs cores, para significar o mundo natural, o mundo humano e 
o mundo divino, cujos emblemas hieroglficos compem os vinte e um grandes trunfos de nosso 
jogo atual de tar.
No centro do anel, v-se o duplo tringulo formando a estrela ou selo de Salomo,  o ternrio 
religioso e metafsico anlogo ao ternrio natural da gerao universal na substncia equilibrada.
c
s
t
n h v k t n h k t
a
h
,
n h v k t s n t h u
s u t h t h u s u t h t h
Em volta do tringulo est a cruz que divide o crculo em quatro partes iguais, assim os smbolos 
da religio renem-se s linhas da geometria, a f completa a cincia e a cincia d a razo da f.
Com o auxlio dessa chave pode-se compreender o simbolismo universal do antigo mundo e 
comprovar suas surpreendentes analogias com nossos dogmas. Reconhecer-se- assim que a 
revelao divina  permanente na natureza e na humanidade; sentir-se- que o cristianismo no 
trouxe seno a luz e o calor ao templo universal ao fazer descer nele o esprito de caridade que  a 
vida do prprio Deus.
A Chave do Grande Arcano 
 
 
EPLOGO 
Graas vos sejam dadas, meu Deus, porque vs me chamasses a essa admirvel luz. Sois a 
inteligncia suprema e a vida absoluta desses nmeros e dessas foras que vos obedecem para 
povoar o infinito com uma criao inesgotvel. As matemticas vos provam, as harmonias vos 
cantam, as formas passam e vos adoram!
Abrao conheceu-vos, Hermes adivinhou-vos, Pitgoras calculou vossos movimentos, Plato 
aspirava a vs em tolos os sonhos de seu gnio; mas um nico iniciador, um nico sbio vos 
revelou aos filhos da terra, um nico pde dizer de vs: Meu pai e eu somos apenas um; glria 
seja, pois, para ele, pois que toda sua glria  para vs!
Pai, vs o sabeis, aquele que escreve estas linhas muito lutou e sofreu; suportou a pobreza, a 
calnia, a proscrio odiosa, a priso, o abandono dos que amava, e, no entanto, nunca se julgou 
infeliz, porque restava-lhe por consolo a verdade e a justia!
Vs sois o nico santo, Deus dos coraes verdadeiros e das almas justas, e sabeis se algum dia 
acreditei estar puro diante de vs; fui como todos os homens o joguete das paixes humanas, 
depois venci-as, ou antes, venceste-as em mim, e destes-me, para que a repousasse, a paz 
profunda dos que buscam e ambicionam a vs somente.
Amo a humanidade porque os homens, enquanto no so insensatos, nunca so maus a no ser 
por erro ou fraqueza. Amam naturalmente o bem e  por esse amor, que lhes destes como um 
sustentculo em meio a suas provaes, que devem ser reconduzidos cedo ou tarde ao culto da 
justia pelo amor da verdade.
Que meus livros vo agora onde Vossa Providncia os enviar. Se contiverem as palavras de vossa 
sabedoria, sero mais fortes que o esquecimento, se ao contrrio contiverem apenas erros, sei ao 
menos que meu amor pela justia e pela verdade lhes sobreviver, e que assim a imortalidade no 
pode deixar de recolher as aspiraes e os votos de minha alma que criastes imortal!
Eliphas Levi 
FIM 
